‘Anjo Negro’: uma obra-prima de Nelson, o anjo pornográfico

             Fazendo a garimpagem de peças em cartaz para recomendar aos leitores da página Cortinas Abertas no Facebook, encontrei informações sobre a apresentação de Anjo Negro no Sesc da Esquina. Como minha dissertação na ENS de Lyon é sobre Nelson Rodrigues e eu de certa forma trabalho com a dramaturgia rodrigueana todos os dias, não podia deixar de contribuir com um pequeno resumo e breve análise da peça. Desculpem-me aqueles que não querem conhecer o final dela, mas em teatro a gente se surpreende mesmo sabendo o final, por isso os clássicos sempre estão em cartaz. Cheguei até o último ato para poder traçar a particularidade da peça em relação às mortes dos filhos do casal Ismael e Virgínia.

* Mariana M. Braga

 Anjo Negro, criada em 1946 e censurada em 1948, é uma peça que se encontra no grupo das peças míticas de Nelson Rodrigues, segundo a classificação de Sábato Magaldi. Com elas, o dramaturgo abriu mais espaço ao inconsciente primitivo, aos arquétipos e aos mitos ancestrais. Ele mesmo afirmou que este grupo de peças inaugura o seu teatro desagradável, aquele que o colocaria cada vez mais longe de conquistar o público. “E por que peças desagradáveis? Segundo já disse, porque são obras pestilentas, fétidas, capazes, por si só, de produzir o tifo e a malária na plateia”.

Como a maioria das peças rodrigueanas, ela evidencia as relações que acontecem no ninho familiar, onde o amor e o ódio coexistem. O diferencial desta peça é a questão racial, que representa a realidade de um país de passado escravagista e, portanto, de presente cheio de preconceitos. Importante para o teatro e a arte, este texto é também uma obra-prima literária e histórica e  por isso a leitura dele é exigida em diversos concursos públicos nacionais.

Em emoções extremas e intensas, a peça conta a história do casal Virgínia e Ismael, uma branca e um negro. Quando as cortinas se abrem, um coro informa que o terceiro filho do casal é morto e este fora afogado no tanque. Ao longo da peça descobrimos que a assassina é a própria Virgínia que não suportava ter filhos negros. Enclausurada na mansão em que vivia com Ismael, não podia ver nenhum branco e reclamava do fato de não suportar mais sentir o cheiro do marido pela casa toda.

Viver com ele não fora opção sua. Foi resultado de uma vingança de sua tia, com quem ela morava na infância, já que era órfã : como Virgínia se relacionou com o noivo de uma de suas primas, o que fez a jovem se suicidar, a tia fez Ismael violar sua sobrinha e os deixou na casa amaldiçoada.

O racismo não está presente apenas nas ações de Virgínia. O próprio Ismael não admite sua cor e culpa sua mãe por ser negro, além de ter inveja do irmão de leite Elias, que era branco, queimar seus olhos e cegá-lo. Um dia este visita Ismael para dar o recado de que a mãe dele queria rogar-lhe uma praga por ter sumido da vida deles de forma ingrata. A princípio Ismael não quer recebê-lo, mas depois de muita insistência, cede oferecendo-lhe um quarto longe de onde ficava Virgínia.

Ela fica sabendo, entretanto, que seu cunhado branco está hospedado na mansão e suborna a criada da família para que Elias venha até seu quarto. Sua intenção é fazer amor com ele para ter um filho branco e evitar a mestiçagem. Mais tarde, ela revela que queria se tornar mulher desse filho.

Através da tia de Virgínia, Ismael toma conhecimento da traição e decide se vingar. Para que ele não mate o futuro bebê, Virgínia mente e acusa Elias por toda a situação, o que faz com que Ismael o atire no rosto.

O terceiro ato nos traz uma surpresa irônica : em vez de um menino branco, Virgínia deu a luz a uma menina, Ana Maria, agora na adolescência. Cega pelo pai adotivo quando ainda era bebê, a menina é criada por Ismael ouvindo mentiras, como a de que ele é o único branco do mundo. Além disso, ela cria um medo da mãe, que Virgínia tenta apaziguar pedindo uma conversa com a filha.

Durante três dias ela conta verdades que Ana Maria acredita serem mentiras, enquanto que a filha revela ter perdido a virgindade com Ismael. Esse momento desestabiliza a mulher que começa a criar um sentimento de posse em relação a seu marido e a crer que o ama de verdade.

Ele fugiria com sua filha, mas Virgínia o convence que a menina só o ama porque crê nas mentiras que ele inventou. Assim o casal foge, deixando Ana Maria trancada num mausoléu. É um outro anjo que morre, reproduzindo esta maldição familiar, e o que resta é mais uma vez o primitivo casal.

O crítico e jornalista Sérgio Augusto os comparou aos personagens gregos : “Virgínia, a Medeia de marfim. Ismael, o Jasão de ébano”, tanto na questão de amor e ódio entre o casal, quanto no assassinato de suas crianças. Mesmo que existam relações entre o teatro rodrigueano e a tragédia grega, como os elementos “logro” e “fatalidade”, é difícil encaixar o dramaturgo em um gênero teatral específico. Também perpassam suas peças características diversas, como expressionistas, melodramáticas, cômicas, naturalistas, pirandellianas, farsescas, psicanalíticas, antropológicas. Como definiu sua obra Sábato Magaldi, ela tem uma dimensão enciclopédica, que permite diversas interpretações e direções.

MARIANA MARCONDES BRAGA

foto: divulgação

 A peça tem uma mise en scène criada para o 2º Festival Palco Giratório e a apresentação acontece no dia 19 de agosto, às 19h, no teatro SESC da Esquina. Os ingressos custam 6 reais (e 3 a meia-entrada, e gratuita para comerciários). R. Visconde do Rio Branco, 969, Centro, Curitiba, CEP: 80410001

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5 responses to “‘Anjo Negro’: uma obra-prima de Nelson, o anjo pornográfico

  1. Obrigada, pai. Obrigada, meninas. Como vocês viram, principalmente no primeiro texto, a psicanálise se tornou parte de muitas análises minhas. Não sossegarei enquanto não me formar nisso também. Me mandem sempre críticas e sugestões, por favor. Beijos!

  2. Pingback: A peça Anjo Negro como ela tinha de ser «·

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