A peça Anjo Negro como ela tinha de ser

A Cia. Teatro Mosaico traz aos palcos uma montagem digna de uma peça rodrigueana

Mariana M. Braga

foto: divulgação

Entramos no teatro e damos de cara com as cortinas já abertas e os atores em cena, fazendo a ambientação da peça, enquanto alguns espectadores se ajeitam nas cadeiras e os últimos a chegar compram seus ingressos. Assim foram uns dez minutos de contato com os atores antes mesmo de a peça começar. Isso me incomodou, porque faltou aquele impacto gostoso de quando a peça começa do nada, mas o diretor Sandro Lucose explicou em uma conversa depois da peça que isso se deve ao fato de eles se apresentarem em tipos de teatros diferentes e espaços alternativos. Ele defendeu também que essa abertura faz parte do aquecimento e da ambientação dos atores e que se passaria com as cortinas abertas ou não.

O terceiro sinal, pelo menos nesta apresentação, não tocou e nem combinaria com a cena que já tinha começado.  Dali em diante, o palco se tornou pleno de uma digna peça mítica de Nelson Rodrigues, segundo a classificação de Sábato Magaldi, com cantigas afro-brasileiras, populares, católicas, num sincretismo tipicamente brasileiro, que combina com o tom que o dramaturgo deu especialmente a essa peça. Segundo os membros do Teatro Mosaico, nesta montagem a companhia apresentou um grande crescimento no que diz respeito às influências em sua base, desde a dança e a música contemporânea, que estiveram claramente presentes em personagens como as primas virgens de Virgínia, até o cenário de Antônio de Pádua.

Ele  abriu mão dos detalhes realistas apresentados no texto e investiu em uma estrutura de ferro que simboliza a cama, tão importante e polêmica na obra rodrigueana e principalmente nessa em questão, em que ela representa ao mesmo tempo violação, amor, ódio, nascimento e morte. A mesma estrutura se desdobra em outras funções,principalmente em casa e mausoléu. Um cenário simples que valoriza a ação e a agilidade dela.

E fazendo jus à qualidade dramática de Anjo Negro, os atores demonstraram ter maturidade e  sensiblidade de sobra. Joana Seibel no papel de Virgínia, nada delicada e com sua voz forte, que intensifica tanto sua agressividade quanto seu desespero, encaixou-se perfeitamente ao papel, acabando com a falsa impressão que a personagem pode passar numa breve leitura do texto de ser uma mocinha de história de amor. Os atores fizeram personagens extremamente humanos, assim como manda o grande Nelson Rodrigues. E é exatamente neste exagero, nestas emoções sempre no auge, nos gestos grandes, mas não falsos, e nas palavras ditas com a força que merecem que o Teatro Mosaico faz uma montagem em que Anjo Negro realmente se faz obra de teatro e não apenas um texto literário. Não que um seja melhor do que o outro, mas são diferentes, e uma boa peça de teatro exige contextos que sejam reais nas suas paixões e nos sentimentos, mesmo que os gestos e a ação não sejam realistas.

Mais uma vez eu falo das peças do Nelson reforçando que o dramaturgo sempre quis retratar o homem em eterno conflito entre seus desejos e a sociedade que o cerca. Cada personagem vive esta dualidade e muitos deles enlouquecem com isso. As personagens igualmente mascaradas que participam do enterro do terceiro filho morto e fazem o coro durante a peça representam a opinião pública e a ideia de sociedade. As primas virgens de Virgínia agem em cena como cadelas no cio, desesperadas pelo desejo que as consome internamente.  A maquiagem, o figurino, o corpo e os gestos delas apresentam seres incorformados, sexualmente infelizes. Acredito que em alguns momentos os movimentos das artizes para representar o ato sexual são exagerados, porque roubam cena, mas não vou ficar muito nesse ponto porque, quando se trata de uma peça rodrigueana, o exagero nunca é demais.

Todos os elementos da montagem , desde o s figurinos, muitos deles bem desenhados, mas nem por isso barrocos, à iluminação crua e objetiva, todos contribuíram para uma apresentação muito rodrigueana, onde o amor e o ódio coexistem, assim como a virgindade e a promiscuidade, as regras e o desejo de liberdade, a vida e a morte. Em Anjo Negro em especial, também temos outro “par de opostos” – segundo os preconceitos que eram ainda maiores em meados da década de 1940, quando a peça foi escrita : o negro e o branco.

E o efeito dessa apresentação é visualmente diferente daquele que se encontrava nas plateias da época das primeiras peças do Nelson: com vaias, tiros, xingamentos, pessoas saindo indignadas do teatro antes de a peça acabar. Como hoje o dramaturgo é admirado no país e sua obra melhor compreendida, depois da última cena as palmas ecoaram no teatro do Sesc da Esquina. Mas psicologicamente o efeito rodrigueano ainda não mudou muito. Fora do teatro ouvi comentários ainda assustados dos espectadores com tanta cena de morte e sexo. Mas é melhor que seja assim. Nelson ficaria muito triste se só houvesse elogios. Assim ele não estaria passando sua mensagem.

MARIANA MARCONDES BRAGA

ANJO NEGRO – 19 de agosto

TEATRO MOSAICO

Texto: Nelson Rodrigues / Direção de Produção: Sandro Lucose / Assistente de Produção: Lauro Simão / Elenco: Deo Garcez, Celso Gayoso, Dani Ornellas, Daniela Leite, Genival Soares, Joana Seibel, Beatriz Napolitany, Milena Machado, Sandro Lucose, Raquel Mutzemberg, Rany Carneiro, Venício Souza / Direção de movimentos: Elka Victorino / Cenografia: Antônio de Pádua / Figurino: Pedro Lacerda / Maquiagem: / Direção musical: Genival Soares / Iluminação: César Germano  / Programação Visual: Maurício de Oliveira / Operação de áudio: Ricardo Porto / Operação de Luz: Lourivaldo Rodrigues / Costureira: Iolanda Silveira / Fotos e vídeo: Maurício Oliveira / Webdesign: Fabian Carlos / Técnico de luz: César Germano

Para saber mais sobre o texto, leia o artigo Anjo Negro: uma obra-prima de Nelson, o anjo pornográfico

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4 responses to “A peça Anjo Negro como ela tinha de ser

  1. “Mas psicologicamente o efeito rodrigueano ainda não mudou muito. Fora do teatro ouvi comentários ainda assustados dos espectadores com tanta cena de morte e sexo. Mas é melhor que seja assim. Nelson ficaria muito triste se só houvesse elogios. Assim ele não estaria passando sua mensagem.”
    Sempre com sua sensibilidade… Parabéns pelo texto!

    • A peça é da Cia. Teatro Mosaico, de Cuiabá, já esteve em Curitiba em outras oportunidades mas dessa vez foi pelo Palco Giratório, o festival do Sesc, com uma única apresentação. Mas o próprio pessoal do grupo disse que pretende voltar. O negócio é ficar de olho e o Cortinas Abertas está aí para lembrar o pessoal das peças que estão em cartaz. Se ela voltar, a gente conta… 🙂

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