O homem só

foto: divulgação

Mariana M. Braga

O homem só. No palco,o monólogo é o melhor para representar isso. E em Tramóias de José na Cidade Labiríntica, não se trata apenas de uma estrutura textual e cênica: o gênero de texto casa perfeitamente com a proposta dele. Mas ao mesmo tempo o personagem de José, vivido por Eduardo Giacomini, não é um elemento totalmente solitário em cena.

Além da plataforma de ferro, com molas que provocam o desequilíbrio do personagem sobre ela – e, metaforicamente, a tudo o que a vida lhe apresenta-, a iluminação entra em cena com tamanha sintonia e com tão forte presença que se desdobra em diversos sentimentos do errante José e ajuda a contar suas histórias.

O trabalho do corpo e da voz do ator e a direção de Olga Nenevê são evidências da busca da Obragem Teatro e Cia. por uma nova linguagem cênica, na valorização do movimento e da palavra. Vê-se no corpo e no olhar de Eduardo que ele vive fragmentos da vida de José que se misturam e que se passam entre sua tomada de consciência, seus desvios inconscientes, suas ficções, vontades, fraquezas e em alguns momentos se refere a si como uma terceira pessoa, narrando os atos como uma rubrica de texto.

A inspiração inicial da dramaturgia veio do conto O imortal, de Borges, e também recebeu influências do Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade, de Dom Quixote, de Cervantes, e do Inferno, de Dante. Ele é denso, faz a plateia pensar e refletir a todo o tempo, além de apresentar jogos de palavras inteligentes.

O que é mais marcante em tudo isso é a questão sobre o homem em relação aos seus desejos, como a fome, a vingança, o sexo, a guerra. Na Babilônia, José se depara com o prazer e a dor ao mesmo tempo. O maior conflito humano, segundo Freud, entre o desejo do homem e a sociedade, seus obstáculos, suas consequências. Esse impasse é encarado pelo homem que carrega também uma inivisibilidade consequente da cidade grande. José (e Eduardo, e tudo o que nasceu da relação do ator com o personagem) nos traz essa problemática  através de um monólogo que confunde o real com a transcendência dele, lida com a consciência e com a superação dela.

Um dos objetivos da Obragem é tratar do homem contemporâneo e dos problemas que ele cria e vivencia. Por isso a peça é engajada e traz várias mensagens, que aparecem como questões, já que, como diz o personagem, o labirinto é feito por elas. Para onde anda o homem contemporâneo? O que é o início e o fim, a vida e a morte? Onde estes elementos se encontram? Ou eles nunca foram separados? Quem alimenta a paz, quem alimenta a guerra? Quem alimenta a paz também alimenta a guerra? O problema é que nesse labirinto os homens, todos eles representados por José, perderam o fio e não acham a saída.

MARIANA MARCONDES BRAGA

(leia também no post abaixo uma entrevista com a Olga Nenevê da Obragem)

Ainda dá tempo de conferir:

Sábado e domingo, às 20h, no Espaço Obragem
Al. Júlia da Costa, 204.
Ingressos a 10 e a 5 reais.

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