Teatro segundo Antoine Vitez

Mariana M. Braga

Desculpem-me pela demora para postar de novo no Cortinas Abertas. Agora, mais uma vez, a uma distância de mais ou menos 10.000 Km de Curitiba. Hoje eu escrevo sobre uma Master-class que tivemos aqui na nossa École com Brigitte Jaques-Wajeman e Jean-Baptiste Malartre, grandes nomes do teatro francês que tiveram a honra de ser alunos e atores do grande diretor Antoine Vitez.

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Com a Brigitte fizemos vários exercícios vitezianos a partir da leitura dos textos Andromaque, de Racine, e Feu la mère de madame, de Feydeau. Nosso primeiro exercício foi direto no palco, onde lemos um monólogo de Hermione (da peça Andromaque), dividindo os versos entre nós. Fizemos apenas uma leitura rápida do monólogo e já começamos a improvisar no espaço usando os versos. Esse impacto com o “estar no palco”, “entrar em cena” é uma questão muito característica de Vitez. Para reforçar esta ideia, fizemos no dia seguinte um exercício em que trabalhávamos com nossos textos fora e dentro de um círculo desenhado no chão. Dentro estávamos no “fervente” da emoção e fora a leitura era fria. Brigitte nos chamou a atenção para a importância de haver uma sensível diferença entre o estar fora e dentro do círculo.

Tratamos de outros conceitos trabalhados por Vitez, como a prescindibilidade da grande decoração e dos figurinos pomposos. O diretor mostrou em seus trabalhos que é possível fazer clássicos sem precisar criar no cenário colunas que imitam palácios gregos.

Há outra característica viteziana citada por Brigitte que é a presença da imagem cristã nos trabalhos do diretor, mesmo ele sendo ateu. Ele buscava esta imagem nos gestos e posturas dos personagens, pela questão mística do evangelho.

Outro ponto sobre o qual trabalhamos foi a língua francesa e os versos alexandrinos, o que nos permitiu “jogar” (numa tradução literal do “jouer” francês, já que “interpretar” às vezes parece não ser capaz de traduzir a atividade) o texto de Racine. A língua tinha um papel especial para o teatro de Vitez e, como Andromaque de Racine é uma peça de 1667, a linguagem é algo que exige muito treino não só para mim, como estrangeira, mas para todos os meus colegas franceses.

Esta Master-class foi muito bacana, como as outras que tive aqui. Mas nessa eu pude ver mais claramente a diferença do teatro brasileiro e do francês. Talvez porque nessa tratamos diretamente de textos clássicos e improvisações. No Brasil, a mesma proposta se tornaria uma experiência muito diferente. Este ano não sou mais uma estrangeira perdida na sala. Por sorte, uma outra brasileira, de mesmo nome, entrou no time.

Nós duas percebemos que no texto de Feydeau, que trata de uma briga conjugal, os atores não conseguiam chegar a um nível de diálogo que demonstrasse realmente a angústia do casal. Quando eles optaram por usar violência, ela foi completamente física e superficial. Quando a rubrica dizia que Yvonne gritava, as atrizes falavam num tom normal. Percebemos que é uma questão completamente cultural e que o mesmo texto é tratado diferentemente aqui e no Brasil. Propusemos então fazer a cena nós duas. Eu fiz Lucien, o homem. Foi muito interessante porque eles se divertiram muito vendo algo diferente daquilo que tinha sido criado antes pelos nossos colegas da Master-class. Tivemos a honra de ouvir o Jean-Baptiste Malartre dizer que nossa apresentação foi a cereja do bolo desses dias de trabalho.

Aqui o cartaz da atividade:

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