Teatro, arte polifônica

Mariana M. Braga

Quando as cortinas se abrem, num determinado horário de uma data especial, em meio a uma temporada longa em cartaz, ou dentro de uma apresentação única de uma peça, todos os minutos que existirão dali a pouco são únicos e efêmeros. A cortina abre, e dentro de alguns ou muitos minutos, ela fecha, existam mesmo essas cortinas ou sirvam de metáfora para o começo e o fim de um espetáculo. E deste tempo só participou de verdade quem fez e quem viu. O teatro, a calçada, enfim, o espaço físico em que toda a trama se desenrola depois será ocupado por outras pessoas, outros espetáculos. Ainda que a peça esteja meses em cartaz, cada dia de apresentação é único.

Quando você revê diversas vezes um filme, isso não acontece. O produto artístico ali é sempre o mesmo, mas a graça de rever está, claro, no fato de poder prestar atenção em alguns detalhes diferentes, interpretar a ação dos personagens e toda a intriga com um sentimento diferente de espectador. O que muda ali é a recepção.

Na arte do teatro, o mesmo texto, a mesma direção, o mesmo espaço, podem resultar em apresentações sutil ou essencialmente diferentes. Tudo depende do estado de cada ator e também da energia da plateia. Acho que isso é uma das melhores sensações do teatro para aqueles que estão no palco. Aquele friozinho na barriga revela essa expectativa sobre o que vai acontecer em cena, sobre o que, apesar de muito ensaiado, é inesperado.

Fazer crítica, estudar e pesquisar sobre teatro é por isso uma tarefa muito inquietante. Quando a gente decide estudar sobre teatro, aparece um leque de informações muito grande: podemos trabalhar sobre a arte e a formação do ator, sobre a direção, a sonoplastia, a iluminação, a transmissão de conhecimento, o texto, etc. E a questão básica gira em torno da dramaturgia e da encenação. Podemos estudar apenas uma delas? Existe alguma mais importante? Na introdução de Impermanent Structures – Semiotic Readings of Nelson Rodrigues’ Vestido de Noiva, Álbum de família and Anjo Negro, Fred M. Clark trata desse assunto, citando alguns autores reconhecidos sobre o tema. Alguns sublinham a dicotomia entre texto e perfomance, outros reforçam a importância de um sobre o outro ou de como um ajuda a entender o outro.

The text, that of the script or the performance, can only be understood intertextually, when confronted with the discursive and ideological sctructures of a period or of a corpus of texts. The dramatic and the performance texts must be considered in relation to the Social Context – that is, other texts ans discourses about reality produced by a society. This relationship being the most fragile and variable imaginable, the same dramatic text readily produces an infinite number of readings. (Pavis, From text to performance,  1988)

Eu percebi, principalmente nas aulas do mestrado em Artes Cênicas na ENS de Lyon, que principalmente na França, o trabalho com textos clássicos ainda é muito valorizado. Além das diversas encenações, o conhecimento sobre aquelas que marcaram o país e as informações sobre importantes diretores de teatro são muito presentes nas aulas e nas discussões. Para isso, no equivalente ao ensino médio deles e, depois, no curso preparatório para as Grandes Écoles, eles se apoiam muito a vídeos que registraram algumas das principais apresentações de teatro.

E, apesar de alguns registros, ainda há uma parte do teatro, aquela de espectador, que é muito importante.  Como acabei descobrindo enquanto fazia, ao lado da minha colega Mélissa Golebiewski, uma entrevista com a professora aposentada e grande espectadora Denise Gaspard-Huit, nas mesas de discussão sobre teatro e nas salas de aula, muito se fala de La Dispute, de Marivaux, dirigida por Patrice Chéreau, que poucos viram.

http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.festival-automne.com/Publish/evenement/347/FAP_1973_TH_03_PHO1_350.jpg&imgrefurl=http://www.festival-automne.com/la-dispute-spectacle347.html&h=232&w=350&sz=27&tbnid=Dg0PTV09ZeE4nM:&tbnh=90&tbnw=136&zoom=1&usg=__iIyZeW5ojYev3hh24M1x2pIMi78=&docid=LI33qVBXUmLYEM&hl=pt-PT&sa=X&ei=YAT3UKjPGJHS9QS7-YHQAw&ved=0CDUQ9QEwAg&dur=4702

La Dispute (foto de Marc ENGUERAND)

Eu, que estudo a dramaturgia de Nelson Rodrigues, percebo que o gostoso do teatro é precisar recorrer sempre a outros aspectos dessa arte polifônica (reconhecendo a inspiração no termo “polifonia informacional”, de Barthes). Conheço pessoas que adoram atuar, outras que amam dirigir, criar cenários, figurinos, pesquisar sobre eles ou pretendem se tornar dramaturgas. O que eu vejo hoje é que é muito difícil desvincular um aspecto do outro. Na França trabalhamos muito com o dossier dramaturgique, um trabalho de pesquisa que auxilia a direção dos atores na criação do personagem e na interpretação do contexto da peça.

A arte polifônica do teatro, efêmera na sua performance, quando chega mais perto do público, com o ator perto dos olhos e o cenário ali, enquanto não precisa ser destruído, tem no texto a sua forma eterna: seja ele a peça escrita ou os inúmeros textos teóricos.

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