A história de um personagem

Mariana M. Braga

Oreste - Hermione

Mirella estava sentada na cadeira do teatro, ao lado dos colegas. Eles tinham acabado de receber do diretor a divisão de personagens. Ela sabia que a partir daquele dia seria Hermione, de Andrômaca, Racine. De repente, aquele nome escrito no texto do grande dramaturgo do classicismo francês, que já tinha ganhado um pouco de vida durante algumas leituras em grupo, se tornaria um pedaço dela. Ela emprestaria à Hermione sua voz, seu corpo, seu olhar, suas emoções. Seria até mais que um casamento.

Mas, epa, peraí. Hermione foi criada por Racine lá no século 17, e seu famoso monólogo já foi representado por inúmeras francesas e estrangeiras. Où suis-je ? Qu’ai-je fait ? Que dois-je faire encore ?

Hermione já existia séculos antes de Mirella existir. Já teve várias vozes, vários corpos, várias ideias. E Racine já a esculpia em sua mente muito antes de colocá-la no papel. Fez o esboço dela mesmo antes de saber que escreveria essa tragédia. Ele já tinha visto um pouco do que faria parte da heroína nas obras dos trágicos gregos e também nas francesas contemporâneas a ele, até mesmo – por que não? – nas suas parentes, vizinhas, enfim.

E depois dele, as atrizes que receberam o mesmo anúncio que Mirella acabara de receber refletiram sobre como interpretariam Hermione, quais seriam suas inspirações, se fariam um laboratório de personagem. Naquele momento, Mirella não tinha que procurar vídeos de outras encenações para imitá-las. Hermione era dela, Hermione era ela, e só isso importava naquele momento. Nos próximos dias ela faria nascer um personagem, que mais tarde seria lapidado pelo diretor. Que frio na barriga.

Leu e releu o texto sozinha em casa. Fez gestos para se diferenciar da personagem.  Forçou uma voz, achando que combinaria com as características de Hermione e criou um olhar confuso. No primeiro ensaio o diretor não gostou: disse que estava superficial. “Mirella, teus gestos e tudo o que você inventou vem de fora para dentro”. A atriz ficou decepcionada. Achava que tudo o que tinha inventado para a personagem parecia bonito e real.

Nessa noite, a atriz sonhou que, em vez de Hermione, era ela quem vivia no lugar da personagem, e não no palco, mas na vida real. Naquele sonho era a filha do rei de Esparta, amada por Orestes, e não a própria Mirella, estudante de Artes Cênicas, funcionária de uma empresa de telecomunicações em pleno século XXI.

Pela manhã, Mirella entendeu pela primeira vez que os sentimentos e a vida de Hermione eram realmente os dela. Entendeu que ela realmente vive a personagem e que toda a história que Hermione já viveu no mundo serviria apenas para entender a personagem que ela seria nos próximos meses. Nesse momento e nesse lugar do mundo, era para ela e apenas ela ser a Hermione escrita por Racine.

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