A Estética do Oprimido e o Ser Artista

Mariana M. Braga

Há quem defenda a arte pela arte e há quem a utilize para mudanças sociais e políticas. Nelson Rodrigues escreveu suas peças sem lançar nelas suas opiniões políticas, enquanto alguns colegas de profissão foram exilados por colocar em cena manifestações contra a ditadura militar no país. Nenhuma categoria de artistas está errada: cada uma utiliza a arte da sua forma, já que ela é polifônica. Se Nelson Rodrigues provocou um tipo de revolução artística que transformou a cena brasileira, Augusto Boal, que foi exilado político, levou para o mundo sua criação: o Teatro do Oprimido, cuja estética se encontra em A Estética do Oprimido, da Garamond. Seus ensinamentos estão presentes em todos os cantos do mundo. O nome Teatro do Oprimido batizou o teatro francês Théâtre de l’Opprimé, onde foram apresentadas as peças e as conferências sobre Nelson Rodrigues em novembro de 2012 (mais informações aqui.) Nelson e Boal: tão diferentes na forma de fazer teatro e, nessa diferença, tão importantes para o teatro do Brasil e do mundo.

Se já falei muito do Nelson, agora é a vez do Augusto Boal. Ele defendeu os oprimidos. Todos os tipos de pessoas às quais a sociedade impõe algum tipo de opressão. A luta dos oprimidos tem de começar por eles mesmos. Para isso é importante que saibam acabar com o que ele chama de “cega e muda surdez estética”, ou seja, que aprendam a saber interpretar as informações que chegam até eles, a questionar as razões de tudo e saber ser criador. Para ele, todo o ser humano é artista: “ser humano é ser artista”. Se é através da Palavra, da Imagem e do Som que existe a opressão, é através desses mesmos elementos que os oprimidos devem se defender. Para isso é imprescindível o trabalho com o pensamento Sensível e o pensamento Simbólico, que devem andar juntos: o primeiro é o que produz a arte e a cultura, cujo meio de transmissão são o som e a imagem, e o segundo se transmite pelas palavras.

Imagem

O Pensamento Sensível é arma de poder – quem o tem em suas mãos, domina. (…) Quando exercido pelos oprimidos, o Pensamento Sensível é censurado e proibido – eles não têm direito à sua própria criatividade: máquina não cria. Aperta-se um botão… e produz. Podem também ser usados como macaquinhos de realejo em programas de auditório… (p. 18)

Boal convida o ser humano a ter consciência dessa estética anestésica imposta pelos que têm poder para, através dos mesmos meios (som, imagem, palavra) serem artistas, criarem, e acabarem com a opressão.

É por isso que ele dizia que sua estética faz ver aquilo que na verdade todos já sabiam, mas não viam. Ele dizia que, assim como os olhos vêem mas também escondem e “nossos ouvidos ensurdecem quando nos convém”, todos os nossos sentidos podem nos trair.

No teatro – a mais complexa de todas as artes porque a todas inclui com suas complexidades -, os artistas (cidadãos) devem fazer-nos ver o que temos diante do nariz e não vemos, entender o que é claro e nos aparece obscuro. Disse um camponês do MST: “O Teatro do Oprimido é bom porque nos ensina tudo que já sabíamos”. (p. 57)

Augusto Boal e o Teatro do Oprimido nos mostram que o teatro, nascido da cultura, também contribui para torná-la um instrumento de consciência social. Ele nos ensina que não é o talento que faz o artista, mas que todos nascemos para criar. Alguns o fazem de forma que chama mais atenção, outros treinam mais, mas na realidade o ser humano é artista por natureza e não pode deixar que essa capacidade seja oprimida. A sociedade é feita de espetáculos, sejam eles apresentações de teatro, casamentos ou cafés da manhã. E nessa história toda, o cidadão tem de ser artista. Boal não fez teatro para o oprimido, mas com o oprimido.

Dê uma olhadinha no trailer do documentário sobre o autor e a obra e entenda um pouco mais sobre o Teatro do Oprimido:

Mariana M. Braga

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