Já que nós não sabemos mais esperar… – sobre ‘Vazio é o que não falta, Miranda’

Mariana M. Braga

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Somos indivíduos que já não sabem esperar e que querem a imediata satisfação de todos os desejos e vontades, numa longa busca de algo que nem se sabe definir. O resultado disso? A angústia. Deparados com esse sentimento enquanto tentavam encenar o grande clássico Esperando Godot, de Samuel Beckett, o Teatro Inominável criou um espetáculo para descrever esse difícil processo de montar o texto. Assim, Vazio é o que não falta, Miranda costura o texto criado por Diogo Liberano a pequenas improvisações, como o momento em que um espectador pode escolher qual atriz representará cada personagem para fazer uma cena do texto de Beckett.

Tudo isso num mundo completamente metalinguístico. A preparação de uma peça teatral, com todas as pausas e chamadas de atenção do diretor como se vê na rotina artística, está dentro de uma peça teatral. As atrizes representam nesse ambiente a humanidade, porque os homens são atores de tudo isso que é um grande teatro, onde o homem é Deus e Deus é o homem. A arte é então a nossa salvação?

A peça, que as atrizes preparam durante a peça propriamente dita, não dá certo, refletindo a realidade da sociedade que transforma a espera de Godot. Já não sabemos esperar e já não entendemos o que esperamos, nem o que nos completa. Construímos o tempo do “eu quero”, virando-o de cabeça para baixo e o transformando em verbo intransitivo. E por que é que essa história toda nos faz rir tanto dentro dessa tragicomédia tão gostosa de assistir?

A instabilidade está presente também no cenário simples, mas marcante, onde o principal é uma mesa inclinada. É ali que as atrizes fazem as personagens delas mesmas sem serem apenas elas mesmas, porque parecem ir além dos limites, explorando tudo o que há de mais humano, o que é, consequentemente, tragicômico. O diretor e dramaturgo Diogo Liberano também mereceu os aplausos de pé, por possibilitar esse convite ao mundo da busca e dos vazios.

Direção e dramaturgia: Diogo Liberano. Elenco: Adessa Martins, Caroline Helena, Laura Nielsen e Natássia Vello. Assistente de direção: Thaís Barros. Direção de Movimento: Dan Marins. Cenário: Rafael Medeiros. Figurinos e visagismo: Adassa Martins e Natássia Vello. Iluminação: Diogo Liberano e Flávia Naves. Direção Musical: Philippe Baptiste. Preparação vocal: Verônica Machado.

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