Tratando daquele temível amor, que mora na nossa casa – sobre “Amores Difíceis”

Mariana M. Braga

Marco Novack

foto: Marco Novack

Quantos livros falam de amor? Quantas músicas, poemas, filmes existem sobre ele? Muitas vezes banalizado, tornou-se até mesmo tema de filmes considerados inferiores ou piegas. Mas nunca é demais falar de amor e pode inclusive ser muito interessante apresentar uma reflexão e uma nova proposição sobre ele. Utilizando-se do teatro físico e de outras vertentes do teatro contemporâneo para trabalhar o assunto, a Súbita Companhia de Teatro coloca em cena Amores Difíceis.

Começando com o objetivo de trabalhar com a literatura de Ítalo Calvino, as influências se estenderam e trouxeram para a composição da peça, além de algumas cenas inspiradas de um conto do italiano, outra de Tchékov e a apaixonadíssima cena de Leonardo e a Noiva de Bodas de Sangre, de Federico García Lorca. Esta, com o fogo da terra andaluza do escritor espanhol, contrasta com a frieza e a solidão trabalhadas nas outras cenas.

Mas nessa direção de Maíra Lour, as cenas não são apresentadas como simples esquetes que se sucedem. Os atores as intercalam com reflexões e discussões sobre elas e o grande tema amoroso, além de exercerem uma metalinguagem em que os atores que estão fora agem como diretores de teatro ou colegas em dias de ensaio, pedindo para repetir a cena, aprimorar a interpretação ou explorar novos sentimentos. O teatro dentro do teatro.

Além da beleza estética dessa direção, a ideia casa perfeitamente com o tema, porque nos faz pensar: – E se analisássemos nossas cenas de amor cotidianas e parássemos para pensar sobre elas? E se pudéssemos refletir sobre nossas atitudes dentro dos nossos relacionamentos, dirigí-las, olhar de uma perspectiva externa e até recomeçá-las, assim como refazemos uma cena?

A dramaturgia de Amores Difíceis também nos chama a atenção para a força do tema “amor” em toda a história da arte e como ele leva personagens ao extremo: nas peças de Shakespeare, todos morrem. E antes disso, desde as tragédias gregas, onde arte e filosofia andavam como irmãs siamesas, o tema do amor é trabalhado como a mais forte e determinante emoção humana, que faz heróis, anti-heróis e até mata.

Mas agora, com o espetáculo da Súbita, também vemos essa história na mesma direção, mas enxergamos também o outro sentido: nem só o amor mata, mas o homem também mata o amor. Logo no início da peça, a fala da atriz Janaina Matter nos introduz a essa ideia: o amor não morre de morte natural.

Na frieza e na correria do cotidiano, podemos acabar deixando atitudes – e principalmente falta de atitudes – sufocarem, enforcarem ou envenenarem o amor. Aquelas belas – felizes ou tristes – cenas de amor de filmes e livros existem porque o amor é tema nosso de todos os dias, é a emoção que nos mantém vivos, tão grande e poderosa que faz alguns a evitarem. Ora, se esse tema foi tão falado, tão tratado em tantas novelas, nesse espetáculo a Súbita nos propõe enxergá-lo também no mínimo detalhe do dia-a-dia, no mundo real, nos silêncios da rotina, onde poderia haver diálogo.

Direção: Maira Lour
. Elenco: Alexandre Zampier, Helena Portela, Janaina Matter e Pablito Kucarz
. Produção : Pró Cult / Michele Menezes

até dia 19 de maio (quinta a domingo) às 20h.

Teatro Novelas Curitibanas.

Entrada franca.

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