Cores, dores e bocas – sobre As Mulheres de Almodóvar

Mariana M. Braga

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O grande cineasta Pedro Almodóvar é conhecido, dentre muitas outras razões, pelo seu trabalho acerca do universo feminino. As mulheres dos filmes do espanhol são uma incrível mistura de elementos às vezes até opostos: melodramáticas, tragicômicas, neuróticas, sujeitos, objetos, livres e, algumas vezes, recalcadas. Além disso, são como Antígona que desafiou Creonte e as leis dos homens: fazem a lei das mulheres, contra o machismo espanhol. Toda essa personalidade forte feminina vem acompanhada do livre tratamento do tema da sexualidade. Na peça As Mulheres de Almodóvar, vemos uma releitura do comportamento dessas personagens. A peça, escrita por Luis Benkard e dirigida por Célio Savi, se inspira na essência das figuras almodovarianas e do toque – também presente na sonoplastia – do fervor emocional espanhol.

As mulheres de Almodóvar não são as mocinhas comportadas, protagonistas de filmes românticos. O cineasta espanhol as tira da posição de ser idealizado e as coloca com os pés bem firmes no chão, com todas as suas complexidades. Eu diria até que todas as mulheres têm seu lado almodovariano: depende da medida em que o deixam livre ou o reprimem.

Na peça, os atores Dayres de Conto, Claudia Minini e Fernando Bachstein vivem histórias narradas cada vez por um deles e com a participação dos outros, como se fossem esquetes. A última é a que tem um toque um pouco realista – tanto no cenário, quanto no figurino e na criação da personagem – e se aproxima mais das cenas cinematográficas. Nela, a mulher interpretada por Claudia Minini surpreende com o final de vingança causado devido às violações sexuais que sofrera quando criança. O sofrimento vivido por ela é minimalista e se transmite dos olhos da atriz aos olhos dos espectadores. Bonito de ver. A cena ainda traz o tema da religião católica, tão importante no contexto espanhol e nos filmes de Almodóvar.

Dayres de Conto vem com o papel de uma atriz pornô almodovariana ao extremo, com uma personagem bem construída e carismática, que conquista o público com simpatia. Fernando Bachstein também criou uma personagem perfeitamente viva e real no palco, de um homem que se submete a uma cirurgia para cortar a genitália masculina. Com muita sensibilidade, o ator vive o caso da mulher que nasce em corpo de homem e luta por conseguir se sentir bem dentro da própria pele.

Algumas vozes em off e efeitos de som remetem ao cinematográfico e a iluminação segue o ritmo quente da peça, tudo bem casadinho, como em uma edição de filme bem feita. As famosas cores de Almodóvar estão fortemente presentes no cenário e no figurino. Muito interessante o uso da peça cor de pele que vem como base para as outras que caracterizam a mudança de personagens: um collant que cobre o corpo todo e possui marcas de corte inspiradas nos nomes de peças de carne, como “maminha”, “alcatra”, “patinho”, etc. Isso nos remete à morte e ao carnal, tão almodovarianos quanto a questão do feminino. Aliás, esses elementos todos se juntam para formar o que é criação única do cineasta espanhol, e que a Curious Cia. de Teatro e a Alegres Comadres Cia. Cênica soube usar de inspiração para essa ótima peça.

Ao final, quando as três personagens principais se encontram, brindam com a música de Joaquin Sabina “Yo quiero ser una chica Almodóvar”, representando essas mulheres almodovarianas, que residem pelo menos um pouco em todos nós – homens e mulheres – e que, como diz a letra, não têm outra lei senão a lei do desejo.

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A peça fica em cartaz até 26 de Maio, de sexta a domingo às 20h, no Teatro José Maria Santos. 13 de maio, 655.

Ficha técnica:

Autor: Luis Benkard. Diretor e sonoplasta: Célio Savi. Assistente de direção: Dayres de Conto. Atores Claudia Minini, Dayres de Conto e Fernando Bachstein. Figurinistas: Fabianna Pescara e Renata Skrobot. Cenógrafo: Gelson Amaral. Iluminador: Anry Aider. Designer gráfico: Marcos Minini. Diretoras de produção: Claudia Minini e Dayres de Conto. Caracterizador de maquiagem: Marcelino de Miranda. Operadores de luz: Anry Aider r Glaudiane Krul. Operador de som: Moa Leal. Fotógrafo: Chico Nogueira. Assessora de imprensa: Isabelle Neri.

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