O eterno Hamlet, no nosso tempo

Mariana M. Braga

HAMLET 1 - DNG

Foto: João Caldas

Guairinha lotado para assistir à estreia (e acredito que isso se repita nas duas outras sessões) de Hamlet em Curitiba. A princípio – pela minha observação -, o interesse da plateia parece ser simplesmente ver um clássico shakespeareano protagonizado pelo famoso ator Thiago Lacerda. Se essa foi a ideia inicial da maioria das pessoas que compareceram ao teatro, muitas outras características do espetáculo chamaram a atenção e surpreenderam.

Thiago Lacerda mostra, mais uma vez, ser muito mais que um rosto bonito de galã da televisão. A construção e a densidade de seu personagem demonstram maturidade artística. Ele vive o angustiado príncipe Hamlet, filho do Rei Hamlet da Dinamarca, que acaba de morrer, deixando viúva a mulher. Ela logo se casa com o irmão e sucessor do falecido, Rei Claudio. Hamlet vê o fantasma de seu pai, que o guia a se vingar de Claudio, porque este o teria envenenado para conquistar seu posto e sua esposa. Thiago Lacerda vive as loucuras de Hamlet, nuançando perfeitamente os momentos de raiva, ódio e os de comicidade e ironia, como quando apresenta a peça teatral que conta a história de traição e incesto de seu tio e sua mãe. Nuance na expressão facial, na expressão corporal e na voz. Um alcance admirável de interpretação. É no conflito moral e existencial que o personagem construído pelo ator lança a famosa questão “ser ou não ser”, porém sem ser clichê. A amada Ofélia, vivida por Anna Guilhermina, encarna a moça que também acaba por enlouquecer, mas de forma sutil, sem buscar uma loucura barroca.

O texto de William Shakespeare rendeu diversos estudos, inclusive os de Freud, que teria relacionado o sofrimento do príncipe da Dinamarca ao Complexo de Édipo, evidenciando que o personagem não conseguia vingar a morte do pai por estar preso ao desejo infantil reprimido, que o criador da Psicanálise relaciona ao que Édipo fez inconscientemente: matar o pai e ficar com a mãe. Nessa visão, a angústia de Hamlet seria originada por perder a atenção e a predileção de sua mãe mais uma vez, agora para seu tio. Isso contribui para sua recusa à mulher e então entramos no tema do mistério sobre o feminino, trabalhado em vários textos de Shakespeare e em especial neste.

E se a peça é encenada mundo afora cheia de pompas em diversos aspectos, tornando-se muitas vezes um clássico difícil de assistir, a direção de Ron Daniels, que é um dos Diretores Associados da Royal Shakespeare Company, opta por uma versão mais próxima do público. Na tradução do próprio Ron com Marcos Daud, a linguagem foi adaptada a termos modernos e gírias que algumas vezes até provocam risos na plateia. Quem ganha muito com isso é o personagem de Polônio, vivido por Sílvio Zilber, que pôde ganhar um toque maior de humor.

Na cenografia de André Cortez, cortinas representam o céu preto com nuvens e estão presentes ao longo de toda a peça com poucas alterações. Os adereços também são poucos – só o necessário – e os figurinos de Cássio Brasil também não lançam mão das pompas utilizadas em outras montagens de clássicos da Idade Média, seguindo a linha da direção, que traz o universo shakespeareano ao Brasil do nosso século. O foco todo parece estar na ação.

Essa montagem de Hamlet trouxe uma nova forma de ver o clássico, sem perder sua essência. E o mais interessante é que tudo isso foi feito sem aquelas produções exageradas, que se preocupam com a forma e muito pouco com o conteúdo.

Ficha Técnica
Texto: William Shakespeare. Tradução: Marcos Daud e Ron Daniels. Concepção e Direção: Ron Daniels. Elenco: Francisco, sentinela e Fortinbrás, príncipe da Noruega – André Hendges. Bernardo, sentinela: Marcelo Valente Lapuente. Padre O Terceiro Ator – Horácio (amigo de Hamlet): Rafael Losso. Marcelo: Rogério Romera. Capitão do exército norueguês e Fantasma do velho rei da Dinamarca: Antonio Petrin. O Primeiro Ator Hamlet (seu filho,príncipe da Dinamarca): Thiago Lacerda. Ofélia (filha de Polônio): Anna Guilhermina. Laertes (filho de Polônia): Marcos Suchara. Cláudio (o novo rei da Dinamarca): Eduardo Semerjian. Gertrudes ( a rainha da Dinamarca): Selma Egrei. Polônio (conselheiro do rei): Sylvio Zilber. O Primeiro Coveiro, Reinaldo (servidor de Polônio): Fernando Azambuja. O Segundo Coveiro, Rosencrantz (amigo de Hamlet): Chico Carvalho. Guildenstern ( amigo de Hamlet): Ricardo Nash. O Segundo Ator, Osric : Everson Romito

Equipe de Criação
Cenografia: André Cortez. Figurinos: Cássio Brasil. Desenho de Lu: Domingos Quintiliano. Trilha Sonora: Aline Meyer. Coreografia de Lutas: Ricardo Rizzo. Assistência de Direção: Leonardo Bertholini. Preparação Vocal: Babaya.

Equipe Técnica 
Construção de Cenário e Adereços: Mais Cenografia – Márcio Vinicius, André Aires, Júlia Munhoz, Niltom Vieira, Ailtom Vieira, Gabriela Souza/Assistência de Cenografia: Fernanda Ocanto. Projeto de Sonorização: André Luís Omote. Produção de Figurinos: Ângela Figueiredo. Fotografia: Adriano Fagundes, Pedrinho Fonseca e João Caldas.

Produção

Direção de Produção: Claudio Fontana. Produção Nacional: BF Produções. Produção Local: Rubim Projetos e Produções.

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