O universo rodrigueano segundo Ruy e o próprio Nelson

Mariana M. Braga

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Lá vem Nelson Rodrigues de novo. O motivo não é ele ser meu tema de pesquisa há dois anos, mas a importância do grande escritor para a cena brasileira e, cada vez mais, para a cena mundial. Outro grande escritor, o Ruy Castro, que fez a biografia de Nelson (O Anjo Pornográfico), brincou de psicografar uma entrevista com seu biografado. Encontrei tudo isso no Iátrico, uma revista do CRM-PR recomendada pelo meu tio Carlos Ehlke Braga Filho. Digitei o texto inteirinho aqui porque vale a pena conferir a brincadeira do Ruy, que nada mais é do que uma repassagem pelas famosas frases e pelos pensamentos rodrigueanos encontrados nos textos de diversos gêneros do homem que criou a “tragédia carioca”. Para entender o teatro rodrigueano é preciso entrar na dimensão de suas ideias.  A entrevista criada pelo Ruy é uma ótima introdução. Também recomendo o livro Nelson Rodrigues – Por ele mesmo (Ed. Nova Fronteira), com crônicas dele selecionadas pela filha, Sônia Rodrigues, e uma seleção de frases ao final. É um ótimo aperitivo sobre o universo rodrigueano.

Não se esqueça de que nunca se deve ler Nelson ao pé da letra: entender sua ironia é essencial. De todas as “aberrações” e do seu “teatro desagradável”, Nelson extrai poesia. Boa leitura!!

Outro dia, fui de madrugada a um terreno baldio aqui no Rio. Enquanto uma cabra vadia comia a paisagem, baixou-me o Sobrenatural de Almeida e, com o olho rútilo e o lábio trêmulo, psicografei esta entrevista com Nelson Rodrigues. Ele não fugiu de nenhuma pergunta. E o que eu mais gostei foi de ver como todas as suas respostas soavam igualzinho às frases que eu já tinha lido nos seus contos, romances, peças, memórias e crônicas.

Ruy – É verdade mesmo que toda mulher gosta de apanhar?

Nelson – Todas, não – só as normais. O homem é que não gosta de bater.

Bater resolve?

O pior na bofetada é o som. Se fosse possível uma bofetada muda, não haveria ofensa nem abjeção, nada.

Por que você era obcecado pela fidelidade conjugal?

Porque em todo casal há sempre um infiel. É preciso trair para não ser traído.

Mas isso é batata?

Não existe família sem adúltera.

Existe o amigo fiel?

O amigo nunca é fiel. Só o inimigo não trai nunca. O inimigo vai cuspir na cova da gente.

O que é importante no casamento?

O sexo é o de menos. O que vale é a humildade capaz de beijar os pés e o chão.

Como você definiria o ato sexual?

O ato sexual é uma mijada.

Mesmo no casamento?

O amor entre marido e mulher é uma grossa bandalheira. É abjeto que um homem deseje a mãe dos seus próprios filhos.

Entre o desquite e a traição, o que é preferível?

A traição, mil vezes a traição.

Mas por que não acabar com um casamento que não tem nada a ver?

Porque o casamento já é indissolúvel de véspera.

O que é preciso para salvar um casamento?
O cinismo. (risos) É preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de prata.

Quem pensa mais em sexo, o homem ou a mulher?

A mulher é mais pornográfica que o homem.

Como assim?

Toda mulher que se ruboriza facilmente é sensual.

Mas isso é uma loucura!

A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira.

Então o negócio é a fidelidade feroz?

Não. Deus me livre da virtude ressentida, da fiel sem amor.

Você acha mesmo?

Acho. Certas mulheres precisam trair para não apodrecer.

Quer dizer que não há saída?

Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros ninguém cumprimentaria ninguém.

As mulheres reagem de acordo com a classe social a que pertencem?

Não. Qualquer mulher é suburbana. A grã-fina mais besta é chorona como uma moradora do Encantado ou de Del Castilho.

Existe a mulher fria?

Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.

Há muitas diferenças entre o Brasil de hoje e o de vinte anos atrás?

O desenvolvimento trouxe um medonho estímulo erótico. Nunca o brasileiro foi tão obsceno. Vivemos uma fase ginecológica.

Por falar nisso, em todas as suas histórias havia um ginecologista. Por que essa fixação?

Todo ginecologista devia ser casto. O ginecologista devia andar de batina, sandálias e coroinha na cabeça. Como um São Francisco de Assis, de luva de borracha e um passarinho em cada ombro.

Qual é a idade ideal da mulher?

Todas as mulheres deviam ter quatorze anos.

E a do homem?

As paixões mais sinceras do homem são dos seis aos dez anos.

Então essa é a idade ideal???

Não, porque, antes dos trinta anos, o homem não sabe nem como se diz bom dia a uma mulher. E, depois dos cinquenta, o sujeito só tem paixões de ópera, de Vicente Celestino, de primeira página de O Dia e de A Luta Democrática.

Por que você era contra o biquíni?

Porque o biquíni é a nudez pior que a nudez.

E o decote? Não era uma coisa meio fora de moda preocupar-se com isso?

Um vago decote pode comprometer ao infinito. Só o ser amado em o direito de olhar um simples decote.

Mangas cavadas também?

A exposição de axilas, fora do local e do momento próprios, é uma degradação.

Bem, pelo visto, isso deixou de ser um problema, não? Está todo mundo nu por aí.

(suspirando) A nudez feminina perdeu todo o suspense e todo o mistério. Vivemos a mais despida das épocas.

O sexo impõe alguma objeção física?

Aos magros, sim. Os magros só deviam amar vestidos, e nunca no claro. Além disso, todo canalha é magro. Já os gordos são de uma mansidão bovina.

E para as mulheres?

A única nudez realmente comprometedora é a da mulher sem quadris.

Existe o amor eterno?

Todo amor é eterno. Se não é eterno, não era amor.

E isso tem valor para os dois?

Sim. O amor não deixa sobreviventes.

Então, o amor é uma impossibilidade?

Absolutamente. É o amor que impede o homem de trotar pela avenida Presidente Vargas, montado por um Dragão da Independência. Um Dragão de Penacho.

O dinheiro compra o amor?

O dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro.

E o pecado?

O pecado é anterior à memória. E já existia quarenta mil anos antes do Paraíso.

E o ódio, existe?

A pior forma de ódio é o ex-amor. Ninguém perdoa aquele ou aquela que deixou de ser amado.

Para finalizar: como você explica a sua famosa frase “Toda unanimidade é burra”?

Porque quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.

(Revista Florense in Revista Iátrico, n. 31. 26-28)

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