GENTE DE TEATRO – Adassa Martins

Mariana M. Braga
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Adassa é jovem, mas sua história com o teatro é de uma vida: começou ainda nos tempos de escola. Atriz e também formada em Artes Visuais, sua vida é toda arte e é nesse caminho que ela quer seguir sempre. Adassa faz parte do carioca Teatro Inominável,  que veio para Curitiba para apresentar Sinfonia Sonho e Vazio é o que não falta, Miranda. Uma entrevista linda com quem ama o teatro e vive por ele.

Cortinas Abertas – Você e o teatro: quando começou esse amor? Foi à primeira vista? O que te levou ao teatro?

Adassa Martins – Comecei meu encontro com o teatro dentro da escola. Nessa época eu morava em Cabo Frio, e minha mãe ficou sabendo de um curso livre no Teatro Municipal de lá. Durante as aulas, os meninos idealizadores do Festival de Esquetes de Cabo Frio começavam a esboçar sua primeira edição. Montei, junto a amigos do curso, um esquete para participar, em 2003. Daí, fui conhecendo os artistas que sustentavam o movimento artístico de Cabo Frio, que é muito forte. Entrei pro Grupo Creche na Coxia, uma companhia com, hoje, quase 40 anos de fundação e que sempre trabalhou e lutou por políticas públicas culturais na cidade. De lá, voltei pra Niterói, cidade em que nasci, no ano 2007, pra ingressar na faculdade onde me formei – Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em Artes Visuais. Aqui, conheci, dentro da UFRJ – onde iniciei um segundo curso na Escola de Belas Artes – as pessoas com quem trabalho hoje. O Teatro Inominável foi formado em 2008 e em 2010 eu cheguei, para integrar o elenco do segundo espetáculo do nosso repertório, Vazio é o que não falta, Miranda.

Você também estudou Artes Visuais. De que maneira o conhecimento e o trabalho com diversas artes te ajudam no trabalho de atriz?

Este é um ponto que cada vez mais chama a minha atenção dentro do trabalho da companhia. No processo de imersão e estudos de cada espetáculo, é interessante como a presença de referências externas à área do teatro nos oferecem material criativo riquíssimo. Por exemplo, em Sinfonia Sonho, último espetáculo do Inominável, antes de pensar encenação, dramaturgia, construção de personagem, o Diogo Liberano, diretor artístico da companhia, nos propôs debruçar sobre O Anti-Édipo, tratado filosófico de Gilles Deleuze e Feliz Guatarri. Em seguida, o romance de Lionel Shriver Precisamos falar sobre o Kevin nos abriu outras frentes de reflexão e, finalmente, um acontecimento real – o massacre de crianças que houve em Realengo, no Rio, em 2011 – nos arrebatou, conferindo um novo lugar ao espetáculo que estava a poucas semanas da sua estreia. Enfim, a minha formação em Artes Visuais é extremamente potente neste sentido, uma vez que é sempre enriquecedor olhar para a cena com, digamos, um ponto de vista externo à ela. Posso dizer que, dentro dos meus processos de criação em teatro, muitas vezes reconheço como é latente a presença de inspirações e intuições que desconheço de onde vêm, e isso é sempre um gás a mais para desbravar novos caminhos, novas formas de fazer a cena pulsar.

Sua vida muda a cada peça em que trabalha? O que “Vazio é o que não falta, Miranda” trouxe para a sua vida, por exemplo?

Miranda é uma peça chave na minha trajetória, sem dúvida. É um trabalho que me coloca a todo o momento em um estado de presença que não dá pra fingir, não dá pra escapar. É vida latente em cena. Miranda foi o estopim pra que eu tomasse consciência disso: o que mais há no teatro é vida. De verdade. E acho que se algum dia o meu trabalho for diferente disso ele não vai mais me responder sinceramente. Em Vazio é o que não falta, Miranda, estamos inteiros em cena de um jeito fundamentalmente humano. Cada apresentação é um novo aqui e agora. Ter aprendido a jogar com este mote levanta muita poeira em todos os meus momentos.

Como você vê o contexto teatral do Rio? O público é diversificado e comparece ao teatro frequentemente? Há incentivo suficiente do governo?

Naturalmente o Rio está contextualizado numa esfera socio-politico-cultural sustentada por uma lógica comprada por interesses específicos e reducionistas. A cidade sofre uma ditadura que tenta nos eximir de questionar nossas escolhas e o funcionamento da nossa vida. Evidentemente existem artistas que forçam uma lógica inversa, contestadora, reflexiva, mantendo pesquisa continuada para abrir e atualizar os encontros do público com o teatro. Este movimento é muito perceptível dentro das universidades – assim como o Inominável, há uma série de coletivos que estão perfurando a cena da cidade, oferecendo uma experiência teatral muito potente e que cada vez mais cria chão. Claro que o incentivo público ainda demora a perceber a equivalência de valor frente à diferença artística. Nós, por aqui, seguimos investigando caminhos, fricções, desvendando a cidade e procurando alternativas de ação como resposta à iniciativas mal estruturadas e sem-vergonhas como a Copa do Mundo, por exemplo.

Você já esteve presente mais de uma vez no Festival de Teatro de Curitiba. O que ele significa para você dentro do cenário teatral do nosso país?

Pra mim, o quesito mais importante nas nossas idas ao Festival de Curitiba foi o encontro e o diálogo com diferentes artistas. Poder compartilhar Sinfonia e Miranda com um novo público é extremamente frutífero. Os nossos pontos de vista se ampliam muito, sem dúvida. Evidentemente, o Festival nos ajudou muito a seguir em circulação com ambas as peças, tendo retornos excelentes pra companhia em termos de público e crítica.

Você ainda tem algum sonho a realizar na carreira teatral?

Sonho em seguir trabalhando e conhecendo novas experiências. Eu de fato faço o que amo, então minha maior vontade é poder continuar investigando. Sou muito curiosa. Quero descobrir pra onde mais me interessa apontar, e o que há de novo no que acho que já conheço. Duvidar das minhas certezas tem me surpreendido muito.

Você ainda sente frio na barriga antes de entrar no palco?

O “frio na barriga”, que também são substituídos por um piriri ou por uma agitação corporal, mental, emocional, estão sempre por aqui. Acho que são consequências da minha real afetação com o trabalho. Se, ao entrar em cena, meu corpo não responde à coisa de alguma forma… que sentido há?

Qual é a melhor sensação que você tem sendo atriz?

Minha melhor sensação é a de estar trabalhando com toda a sinceridade e seriedade, e ainda tendo o privilégio de estar cercada por artistas que amo e admiro. Poder me redescobrir, reinventar, relacionar, duvidar, questionar, puxar meu tapete, apostar, cutucar, e ainda com essa galera, é tarefa fascinante.

Há alguma pessoa de teatro que mais te inspira?

Admiro muita gente, mas sinceramente quem mais me inspira são o Diogo, a Natássia, a Flávia, a Helena. Sim, sou repetitiva (risos) mas é realmente isso. Mesmo quando estou envolvida em trabalhos de fora, estou repleta e muito nutrida pela nossa paternidade dividida – como chamamos: o nosso filho Inominável. É maravilhoso poder investir com tanto amor no que realmente me interessa.

 

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