As vozes de um pai só

Mariana M. Braga

ImagemUm monólogo com múltiplas vozes. Uma tarefa muito difícil para quem está no palco. Assim é construída a adaptação para o teatro do romance O Filho Eterno, do querido Cristóvão Tezza, criada por Bruno Lara Resende e dirigida por Daniel Herz. Eles trouxeram para o palco a história do escritor e de seu filho com síndrome de Down, que tanto no livro como na peça teve uma excelente repercussão nacional e internacional.

Assumindo, ao mesmo tempo, a narração e as vozes dos personagens envolvidos na história, o desafio encarado pelo ator Charles Fricks me lembra da dificuldade de viver o monólogo Valsa n. 6, de Nelson Rodrigues. A adaptação de Bruno, a propósito, tem muito a ver com a única peça do Nelson feita para um ator só.

Isso porque o mais difícil nesses dois monólogos é a alta velocidade de transições das vozes: Charles é o narrador em terceira pessoa e um segundo depois vive o pai de Felipe, logo faz a voz da mãe, o próprio menino, a fonoaudióloga e…ufa. Tudo flui como se estivéssemos lendo: não há lacunas entre a narração e os diálogos…a leitura dos olhos segue a história toda carregada por um ator e um excelente e sincronizado jogo de luzes. No cenário, apenas um fundo azul e duas cadeiras.

Em O Filho Eterno não vemos a história de reconstrução da vida de uma morta, como na Valsa, mas vemos uma reconstrução de memórias de um escritor que guardou um fato muito importante de sua vida longe dos seus escritos durante pelo menos duas décadas. O argumento do texto de Tezza poderia ter se tornado um filme um tanto quanto piegas, mas não. Não é piegas porque é texto do Tezza e traz uma linguagem deliciosa, uma bomba de realidade, lances de desespero que remetem ao terror daquele pai que não estava preparado para tudo o que lhe acontecia e todos os milhões de sentimentos que vieram na bagagem dessa experiência. No palco a gente vê o premiado ator encarnando tudo isso e administrando todas as vozes com maestria – diversas delas vindas ao mesmo tempo do desespero, dos pensamentos e dos sentimentos solitários do pai de Felipe, além de todas as outras vozes.

É inspirada nesse maravilhoso espetáculo que prossigo meus ensaios para a Valsa n. 6 na versão francesa de Angela Leite Lopes, que eu e a Fernanda Vilar adaptamos para duas atrizes. Espero saber chegar aos pés de Charles para orquestrar os fatos e as palavras vividas pela Sônia. Todos temos diversas vozes dentro de nós; orquestrá-las é que é difícil. A Cia. Atores de Laura fez muitíssimo bem e O Filho Eterno é um espetáculo digníssimo de levar o nome do Tezza e ter tamanha repercussão no país e fora. Para quem não pôde ver nesses dias, a peça volta para Curitiba entre final de julho e começo de agosto, no Palco Giratório do SESC.

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