Uma história do Brasil e do Nelson contada por franceses – sobre Fleur d’Obsession

Mariana M. Braga

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Eu já deveria ter feito esse texto em novembro do ano passado, mas a correria me impediu naqueles dias e depois parecia que a pauta já estava ultrapassada. Até que esses dias eu li uma crítica sobre Fleur d’Obsession no blog La Jaseuse. Trata-se de um olhar francês sobre a peça inspirada na obra de Nelson Rodrigues, dirigida pela brasileira Flávia Lorenzi e interpretada por uma trupe de jovens estudantes franceses. A estreia foi no ano passado, durante o festival em homenagem ao centenário do Nelson Rodrigues, do qual participei com uma conferência. Eles reapresentaram a peça no Théâtre de Verre em maio deste ano e a crítica da francesa eu traduzi para o blog The Worldly Words (eu coloco logo abaixo deste texto).

Por mais que o grande dramaturgo tenha 17 peças fantásticas, não é exagero inventar mais uma inspirada nas obsessões rodrigueanas. Fleur d’Obsession é um resumo poético da obra e da vida do autor, com extratos de algumas peças e alguns textos criados pela atriz Maïe Degove, além de algumas cenas que remetem à política e ao futebol brasileiro. Para uma brasileira em terra francesa, a festa da torcida e da seleção no vídeo projetado no palco, o barulho e a comemoração são de arrepiar e encher de saudade. Um gosto de Brasil na terra do vinho e do frio. E os atores franceses ainda se dedicaram a algumas falas em português.

Se a peça como um todo parece vir para situar o Brasil da época do Nelson, o contexto político do AI-5 e a paixão pelo futebol, de forma quase didática, algumas cenas inspiradas nas peças rodrigueanas são os pontos mais poéticos da peça e mais teatrais, onde a sensibilidade toma conta do palco e alguns dos elementos que tornam o teatro de Nelson tão encantador. Destaco a cena que se inspira na Valsa n. 6, o único monólogo do autor, em que três atrizes vivem alguns momentos da jovem Sônia e a coexistência da morbidez, da graça, da sensualidade e do pudor. As referências a Vestido de Noiva e O beijo no asfalto também são momentos de intensidade teatral.

Relacionar morte, vida, paixão, futebol, política e tantas peças rodrigueanas não é tarefa fácil, mas a direção de Flávia Lorenzi orquestrou bem esses elementos, costurando uma peça coesa. Os jovens atores são pura vida em uma descoberta encantada do mundo rodrigueano. Foi muito bom conversar com eles no dia da minha intervenção. Na plateia, uma senhora disse que já havia assistido a algumas peças do Nelson dirigidas pelo famoso Allain Olivier na França. São algumas sementinhas rodrigueanas plantadas por lá, que a Flávia Lorenzi continuou plantando e eu comecei a plantar em 2011. Grandes passos para o conhecimento sobre o Nelson, e sobre o Brasil, em terras francófonas também deram os tradutores, dentre eles a querida Angela Leite Lopes. Em todos os cantos do mundo pouco se sabe sobre o Brasil e apresentá-lo pela visão rodrigueana e pelos palcos é, no mínimo, interessantíssimo para quem começa a descobri-lo.

TRADUÇÃO DA CRÍTICA DE LA JASEUSE:

Refresco, memória e generosidade

Apresentada pela primeira vez no Teatro do Oprimido em 2012 durante o centenário de nascimento de Nelson Rodrigues (1912-1980), considerado o maior dramaturgo brasileiro, a criação da Compagnie Bruta Flor voltou no mês de maio durante alguns dias no Théâtre de Verre. Uma homenagem poética e vibrante ao fundador do teatro brasileiro moderno, a um homem apaixonado e a um artista engajado, muitas vezes censurado e hoje pouco conhecido na Europa.

Um cenário despojado iluminado por velas, um escritório velho com máquina de escrever. Oito jovens atores cheios de energia e generosidade revigorantes. Através de extratos de peças do próprio Rodrigues (Vestido de Noiva, Valsa n. 6, O Beijo no Asfalto), de suas memórias, e também de textos brilhantemente escritos pela jovem atriz Maïe Degove, o espectador descobre as paixões e obsessões deste homem raivoso. Dez obsessões, dez quadros. A morte, a família, o amor, o futebol, os cegos… O resultado poderia ser picado ou descosturado, mas não foi nada disso. Flavia Lorenzi dirigiu seus atores com exigência e precisão, a escrita é refinada e, apesar de uma sonoplastia às vezes muito presente e dramática, a vida e o universo do autor são costurados com sutileza e inteligência. Nós descobrimos o teatro de Rodrigues, um teatro voluntariamente chocante, mórbido, incestuoso, “desagradável” – segundo seus próprios termos. Um teatro que interpela, que fascina. Um mergulho louco e dançante no Rio dos anos 60, importado pelo vigor e talento de uma jovem trupe que promete. Um espetáculo que não pode ser ignorado.

Para saber mais sobre Nelson Rodrigues :  http://www.nelsonrodrigues.tk/ (www.nelsonrodrigues.fr)

 

Fleur d’Obsession a partir da obra de Nelson Rodrigues, com textos de Maïe Degove / Tradução de Angela Leite Lopes e Daphné Tresgots

Direção e adaptação Flavia Lorenzi Com Compagnie BrutaFlor : Alexis Cauvin, Fanny Mougel, Maïe Degove, Amandine Gilbert, Anne-Sarah Faget, Fabio Godinho, Laurianne Loisel et Chloé Julien-Guillet

Cenografia e figurino: Alexis Cauvin et Anne-Sarah Faget

Théâtre de Verre, 17 rue de la Chapelle (18e) M° Marx Dormoy

http://www.theatredeverre.fr

 

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