E se fôssemos todos loucos?

Mariana M. Braga

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Só se chama alguém de louco porque há um nível de “normalidade” criado e estabelecido pela sociedade. Não somos naturalmente divididos entre loucos e sãos. Se analisarmos as pessoas que são hoje chamadas de loucas, perceberemos que, no cotidiano, a maioria delas são assim intituladas porque ousam se vestir, agir e amar de forma diferente do comum. Eu acredito que muitas vezes os “loucos” são exatamente como a maioria das pessoas gostaria de ser, mas o superego delas não deixa. Freud explica. Somos todos homens em conflito entre as pulsões e as exigências do mundo exterior e dos reflexos desse mundo dentro da gente. Quando há um casal feliz se beijando na rua todos os recalcados abrem as bocas em espanto, apontam os dedos horrorizados. Para mim isso tem um nome: dor de cotovelo. Por que ver duas pessoas se amando irrita tanto as outras?

Esse é um dos exemplos tratados na peça Loucos de Pedra, texto e direção de Edson Bueno. No elenco, Renata Chemin, Lucas Ribas e Robysom Souza. A peça é uma homenagem a François Truffaut e inspirada principalmente no seu filme Jules e Jim – Uma mulher para dois, de 1962. Os três atores contam sobre uma relação amorosa e de amizade de François, Camille et Jean-Luc – um relacionamento a três, não um triângulo amoroso como vemos normalmente na ficção e na vida real. Os adolescentes se sentem livres para viver a relação deles, descobrindo uns aos outros e a eles mesmos. Aí eu enxergo também uma proximidade com a relação dos jovens personagens de O sonhadores, do Bertolucci.

A alegria deles incomoda os olhos dos que habitam a cidadezinha em que vivem. Ela parece ser uma metáfora da sociedade como um todo: preconceituosa, limitada, recalcada. Eles passam, então, a questionar sua posição em relação ao mundo. A religião aparece como um problema: seriam eles pecadores?  Mas eles resolvem: eles amam e não pode haver maldade no amor. O texto reflete e faz refletir sobre a questão da moralidade e da religião, do preconceito que freia, isso quando não bloqueia e impede seres humanos de se amarem e serem livres.

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Eu ouvi uma espectadora falar que os atores não precisavam tirar a roupa em cena quando os personagens brincavam de se banhar. E eu questionei: E por que não poderiam tirar? Quem vê a nudez com naturalidade não se incomoda com isso. Pelo contrário. Seria contra a mensagem da peça – e contra muitas outras coisas que fariam dessa resenha um livro – os atores se jogarem de roupa fingindo estarem nus.

Uma história específica com três principais personagens representa a humanidade como um todo, tratando de assuntos universais, como a solidão. Coloco aqui embaixo um extrato do texto que encontrei no blog do Grupo Delírio.

François – Será que somos pessoas muito sozinhas, no meio desta nossa cidade? Que nesta madrugada eterna não existe um outro coração acordado pedindo uma chance de ir embora pra sempre? Pra poder respirar, viver a vida com encantamento?

Camille – Será que somos só nós os solitários?

Jean-Luc – Nós três juntos?

François – Separados. Um a um.

Camille – Juntos não somos solitários.

François – Mas com nós mesmos?

Camille – Eu acho que o que nos salva da solidão é a solidão de cada um dos outros.

Jean-Luc – O padre é sozinho? A professora de história é sozinha? O guarda é sozinho? O tarado é sozinho? O bêbado é sozinho? A moça da biblioteca é sozinha?

Camille – Acho que todos e nós. Não são menos sozinhos que nós.

François – Às vezes, quando três pessoas estão juntas, apesar de se falarem, o que elas comunicam silenciosamente uma à outra é o sentimento de solidão.

Jean-Luc – É. Acho que é.

Camille – É.

Ainda há referências a Fernando Pessoa, Oscar Wilde, Rimbaud e outros caras excepcionais. Tudo isso com um sofá vermelho centralizado no palco, uma cadeira de diretor, spots de luz e um toca discos. O ar de intimidade do cenário parece construir ali um universo paralelo ao que existe fora dele. Em determinado momento, quando os jovens vão se divertir no meio do mato, a plateia também se torna palco e os atores se aproximam.

Para não perder o contato com o cinema, além de François querer ser diretor e Camille estrela de cinema, há uma projeção de vídeo ao fim da peça, com a música Le tourbillon de la vie, que é da trilha sonora do filme, e Camille cantando. Para finalizar no clima de liberdade, nos agradecimentos ouvimos Fuck You, de Lilly Allen.

Algumas pessoas me perguntaram sobre a pronúncia de algumas falas em francês por eu ser fluente na língua. Confesso que algumas frases são incompreensíveis, mas acho errado julgar a forma como um estrangeiro pronuncia uma língua não materna. Até porque a maioria dos franceses, ainda que se esforçasse muito, não conseguiria pronunciar da mesma forma palavras em língua portuguesa.

Recomendo muito Loucos de Pedra, principalmente para os que se consideram loucos, como eu. Como diz Jean-Luc na própria peça, louco normalmente quer ser artista.

Em cartaz até dia 28 de julho, no mini do Guaira. Quintas e sextas-feiras às 20h, sábados e domingos às 18h e às 20h

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