Uma viagem quase sem movimentos |sobre Cronópios da Cosmopista, um antimusical psicodélico|

Mariana M. Braga

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Cronópios da Cosmopista é teatro quase sem movimentos. Essa é a proposta do diretor Rafael Camargo, que o Cortinas Abertas também acompanhou em Buraco da Fechadura. A peça é densa, principalmente para quem não está acostumado a essa estética do teatro da inação, pela concentração necessária para se concentrar nas falas muitas vezes fragmentadas que vêm acompanhadas de pequenos e raros movimentos. A direção é uma combinação interessante com o universo das obras de Julio Cortázar, que inspiraram a peça, principalmente Los autonautas de la cosmopista, sobre a viagem – como diz o subtítulo do livro “un viaje atemporal París-Marsella”– do autor com sua esposa Carol Dunlop.

A profundidade psicológica do autor está presente no texto e na direção da peça, cuja experimentação acompanha a essência do grande escritor inovador da América Latina, conhecido principalmente pela sua prosa poética e pelos contos curtos. Os fragmentos das falas dos atores Rafael Camargo, Cristiane de Macedo e Diego Marchioro também me lembraram a estrutura de outro livro do escritor, O Jogo da Amarelinha (Rayuela), que pode ser lido por ordens diferentes. É interessante pensar em como seria a peça se as falas trocassem de ordem.

“Qual é a sua minha estrada?” Ouvimos com frequência essa fala dos atores. Enquanto eles pensam e questionam sobre os caminhos possíveis, o barco em frente à atriz parece não se mexer e os pés de Rafael Camargo parecem sofrer sendo puxados para o chão por chinelos de pedra. A peça nos aprisiona também de uma forma curiosa. Enquanto o pensamento vai longe seguindo as falas, dá voltas com eles, voltam, fazem sentir, depois raciocinar, depois parar para olhar com um pouco mais de distância, o corpo fica ali, quase inerte como os atores.

O fantástico está presente na peça toda e o psicodélico – como sugere o subtítulo da peça – entra em evidência com as bocas que dublam a letra de música que sai quase sem som, enquanto o instrumental toca em cena. As bocas abrem bastante, como nos exercícios de aquecimento de voz. Parece que a voz só se solta e arrebenta ao final, no canto de Rafael, enquanto a luz treme, dando a impressão de que o chão treme junto. Depois Black-out. Hora de pensar de novo em tudo o que foi pensado durante a peça. Cronópios da Cosmopista é uma peça que levamos pra casa na reflexão e que faz pensar que podemos sempre entendê-la melhor do que como acreditamos que a compreendemos até então. O que ela me deixa certo é que somos todos cronópios de uma gigante cosmopista.

A peça fica em cartaz no Novelas Curitibanas até dia 29 de setembro, quinta a domingo, às 20h. A entrada é franca.

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