Valse n°6 : Nelson Rodrigues visita Lyon

Mariana M. Braga

A pedidos, vou contar a história da nossa apresentação em Lyon

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Cartazes do espetáculo Valse no  6 espalhados pelos corredores da École Normale Supérieure de Lyon. O lugar onde eu concluía meu mestrado seria palco de uma das maiores realizações da minha vida. Desde 2011 falo para as pessoas daquela école sobre o dramaturgo que estudo: Nelson Rodrigues. Desde o começo senti a necessidade de tornar mais conhecido por lá quem é tão importante por aqui. O primeiro passo foi o trabalho do primeiro ano, que apresentei numa palestra em Paris durante o centenário do autor. Convidaram-me para o evento por me conhecerem através do site que criei em francês  (nelsonrodrigues.fr). Depois veio a mais madura dissertação finalizada no segundo ano e a apresentação da peça.  Valse no  6  é um projeto que já tinha sido rabiscado na minha cabeça desde o primeiro ano e que, tendo interessado à Fernanda Vilar, uma brasileira veterana na vida francesa, amante da literatura e da cultura brasileiras, decidi que era hora de encarar dois desafios: apresentar concretamente Nelson Rodrigues a eles e voltar aos palcos.

Candidatamos nossa peça à seleção do grupo EN Scène, que organiza e financia eventos culturais da école. A peça foi aprovada. Poucos dias antes eu tinha recebido em casa o único exemplar usado do texto traduzido por Angela Leite Lopes que encontrei por sorte em um site francês.

Como sempre, mantive vários projetos em paralelo, meus estudos em Jornalismo, meu trabalho como assessora, enquanto terminava nos últimos meses a dissertação. Sem aulas, já fazia tudo isso no Brasil, enquanto a Fernanda estava em Paris trabalhando sobre a tese dela. Como ensaiar então?

Ousamos fazer as primeiras leituras e discussões por Skype. Isso mesmo. Marcávamos encontros por skype, líamos a peça e debatíamos sobre a direção. Claro que esse método de ensaio só foi possível porque o texto tem uma certa particularidade. Trata-se de um monólogo, que adaptamos a duas vozes depois de alguns momentos de inspiração e epifania. Tudo isso durante os ensaios na internet. Eu faria, a princípio, a personagem Sonia e Fernanda, as vozes que no texto a própria menina faz do médico, do pai e da mãe.

O monólogo de Nelson Rodrigues é complexo na forma e no conteúdo. É a história de uma menina que acaba de morrer sem ter consciência disso e tenta reconstituir seu passado. Enxergamos na personagem de Sonia, dentre todas as vozes da sua subjetividade, duas principais: a da menina e a da mulher, ou seja, o lado dela que tem pudor e o que busca sua liberdade. Tínhamos então duas vozes e uma personagem.

Fizemos algumas adaptações para tornar o texto mais compreensível aos franceses, como quando a menina fala que nunca foi à Quinta da Boa Vista. Trocamos o local para Perrache, um famoso bairro de Lyon. Também cantamos músicas infantis francesas nos momentos da peça em que a menina se lembra da infância, em vez de usar traduções de músicas brasileiras.

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Nossa ideia inicial era apresentar a peça em um dos pátios da escola, que ficam entre as salas de aula, onde normalmente os franceses fumam. Privilegiamos esse espaço em relação ao grande teatro da escola e a EN Scène gostou da novidade. Como a iluminação em espaço aberto não seria tão eficiente, lançamos mão de pequenas lanternas para variar a iluminação da peça e deixá-la mais dinâmica, acompanhando os pensamentos da jovem Sonia.

Devido ao tempo que ameaçava um pouco de chuva, precisamos trocar no dia da estreia o local da apresentação. Já não podíamos mais usar o teatro porque não o havíamos reservado. Procuramos uma sala que tivesse estrutura e tamanho para a apresentação e readaptamos um pouco a nossa mise en scène. Assim, no dia 17 de setembro, a peça nasceu de verdade.

Depois da última apresentação, no dia 19, também meu último dia em Lyon, fui me despedir das pessoas em uma festa da école. Lá várias pessoas que eu não conhecia vieram falar sobre a peça. Fico feliz que estrangeiros tenham entrado em contato com o teatro rodrigueano e brasileiro. Torço para que possamos ainda fazer muito disso pelo mundo.

Hoje eu agradeço muito a Fernanda por ter topado encarar esse desafio comigo, pela enorme dedicação, a Natália por topar executar a iluminação e o som nos dias de apresentação, a EN Scène por confiar no nosso projeto e a todos os que foram conferir de perto ou torceram de longe pelo nosso trabalho.

Vocês podem acompanhar aqui os vídeos da peça:

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