PEEP CLASSIC ÉSQUILO traz nova forma de ver as primeiras tragédias |entrevista|

Mariana M. Braga

OS PERSAS Foto: Julieta Bacchin

PEEP CLASSIC ÉSQUILO é para ver todas as tragédias do primeiro dramaturgo da História de uma forma completamente diferente. O Club Noir traz para Curitiba, Londrina e Maringá um trabalho inspirado na alteridade estética das obras do autor grego. O projeto já ganhou os prêmios APCA 2102 (Associação Paulista de Críticos de Arte) e Governador do Estado para a Cultura 2012. Também foi indicado ao Prêmio Bravo! 2012 de melhor espetáculo de teatro e eleito pela Folha de S. Paulo como a melhor estreia nacional de teatro do ano passado.

A direção das peças não se baseia na catarse, na auto-identificação do espectador com os personagens: os textos são uma invenção de um outro universo, outro tempo e outro espaço. Essa é uma das características da estética do grupo presentes nos espetáculos. O Cortinas Abertas entrevistou o diretor da montagem e um dos criadores do grupo, Roberto Alvim.

MARIANA BRAGA (CORTINAS ABERTAS) – É tendência europeia trabalhar com textos dos trágicos gregos. No Brasil não encontramos muitas encenações de Ésquilo. De onde surgiu a ideia de colocar em cena esses textos?

ROBERTO ALVIM – Minha companhia, o Club Noir, foi criada por mim e pela atriz Juliana Galdino com o objetivo de encenar prioritariamente obras de autores contemporâneos, que procuram ampliar a experiência humana através da invenção de novas/outras experienciações do tempo e do espaço: autores que criam outros mundos em cena, e que os habitam com formas de vida da ordem da alteridade. Depois de encenarmos dezenas de dramaturgos, resolvemos ir ao primeiro autor da História do Teatro. E descobrimos em Ésquilo procedimentos que se irmanam às invenções da dramaturgia contemporânea: Ésquilo instaura em cena outros mundos, completamente distintos do modo como vivenciamos a condição humana hoje. Visitar sua obra significa experienciar um planeta estético desconhecido para o homem de nosso tempo, e esta visitação amplia nossas vivências em veredas insuspeitadas. Ésquilo é, para o homem do século XXI, uma alteridade radical.

MARIANA BRAGA (CORTINAS ABERTAS) – O texto, que é da tragédia grega, encontra na direção desses espetáculos um contraste – como uma tentativa de mesclar o clássico e o contemporâneo – ou vocês realmente relêem as tragédias de Ésquilo, encontrando nelas algo que ainda não foi muito explicitado?

ROBERTO ALVIM – Nunca procuramos “atualizar” uma obra. O que fazemos é empreender um diálogo com o inconsciente do autor, inconsciente este que está fisicalizado na arquitetura linguística dos textos. Montar uma obra é instaurar um diálogo entre inconscientes: o inconsciente do autor, em diálogo criativo com o inconsciente dos atores, mediado pelo inconsciente do diretor. O resultado é sempre imprevisível para todos. Neste sentido, estamos encenando Ésquilo como se fosse a primeira vez em que este autor é encenado. Não referenciamos nosso trabalho em nenhuma instância comparativa com montagens anteriores. Só o que procuramos é ativar aquelas palavras, e nos contaminar com o gráfico de forças e com a produção de intensidades proposta pelos textos.

MARIANA BRAGA (CORTINAS ABERTAS) – Qual é o papel da voz dos atores nos espetáculos?

ROBERTO ALVIM – A voz tem papel central. É a fala que promove deslocamentos no imaginário dos espectadores: cada palavra dita é como uma semente lançada no espaço sensível dos ouvintes. É a voz que movimenta a cena, em suas diferentes modelações de tempo, em suas distintas texturas, que presentificam o invisível.

MARIANA BRAGA (CORTINAS ABERTAS) – De que forma vocês fazem dessas peças pré-socráticas? Por que não há catarse? O que o público reconhece em cena, em vez dele mesmo?

ROBERTO ALVIM – Os espectadores não reconhecerão a si mesmos nestas obras. Estas obras são um corpo estranho. São um convite para trilharmos caminhos desconhecidos. Se este convite é aceito, então podemos experienciar algo que desestabiliza os discursos hegemônicos, e que reconfigura nossa relação com uma obra de arte. Não tem a ver com afetos; tem a ver com a abertura de um furo no real.

MARIANA BRAGA (CORTINAS ABERTAS) –  Essa característica faz das peças universais?

ROBERTO ALVIM – Universal é o que fala para todas as culturas, por constituir-se como molde simbólico para a natureza humana. PEEP CLASIC ÉSQUILO não é universal, não é uma reiteração do que entendemos por humanidade; é, sim, um ponto-de-fuga para qualquer espécie de universalidade. É uma reinvenção do homem.

FICHA TÉCNICA

Gênero: Tragédia

Dramaturgia original: Ésquilo

Direção e adaptação: Roberto Alvim

Com os atores da cia CLUB NOIR: Juliana Galdino, Paula Spinelli, Gabriela Ramos, Martina Gallarza, Bruno Ribeiro, Fernando Gimenes, Marcelo Rorato, Renato Forner e Ricardo Grasson

Direção de Produção: Juliana Galdino

Produção Executiva: Danielle Cabral

Produtor de Operações: Marcelo Rorato

Cenário e iluminação: Roberto Alvim

Figurinos: Juliana Galdino

Fotografias: Julieta Bacchin

Arte gráfica: Felipe Uchôa

SERVIÇO

CURITIBA

18, 19 e 20 de outubro às 20h no Teatro José Maria Santos

Dia 18 – “As Suplicantes” e “Os Persas”

Dia 19 – “Orestéia I” e “Orestéia II

Dia 20 –  “Sete Contra Tebas” e “Prometeu”

 

LONDRINA

8, 9 e 10 de novembro às 20h na Sala de Teatro da Divisão de Artes Cênicas – Casa de Cultura – UEL e

MARINGÁ

 11,12 e 13 de Novembro às 20h30 no Teatro Arena Cultural Sicred Platão (Dentro do Colégio Platão)

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