O quarto poder e a censura – sobre A Noite, de Saramago, em Lisboa

Mariana M. Braga

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“Qualquer semelhança com personagens da vida real e seus ditos e feitos é pura coincidência. Evidentemente.”

Assim escreve José Saramago na sua primeira peça de teatro, em cartaz no Teatro da Trindade, em Lisboa, com encenação de José Carlos García. O cenário de A Noite é muito realista: uma redação de jornal, com mesas de escritórios organizadas tal como ficavam nas antigas redações, com a secretária bem ao centro do palco, a estagiária ao lado, e na parte mais alta do palco os outros jornalistas, todos homens. No lado direito, a sala do diretor.  As relações entre os atores e os trabalhos dos personagens já começam quando o público entra no teatro. Depois de a peça começar oficialmente, enquanto alguns personagens se comunicam, outros continuam as atividades. Às vezes algumas cenas se cruzam, acontecem ao mesmo tempo. Tudo dá a impressão de uma verdadeira redação dos anos 1970.

Eles estão numa rotina de trabalho, até que o conflito acontece: é a noite de 24 de abril de 1974. Manuel Torres é um jornalista sério, interessado pela transmissão da verdade e a imparcialidade jornalística, enquanto o chefe de redação Abílio Valadares é submisso a interesse de políticos e conta com o apoio do diretor Máximo Redondo.

Quando a redação toma conhecimento de uma possível manifestação nas ruas, o chefe proíbe a divulgação. Ao lado de Torres, a estagiária Cláudia e Jerónimo, o linotipista, lutam, dentro da redação, pela publicação dos fatos.

De volta à frase de José Saramago que abriu este texto, a revolução no interior da redação está relacionada a um fato verídico vivido pelo escritor enquanto trabalhava no Diário de Notícias. Em novembro de 1975, no período pós-revolução, ocorreu o que foi chamado de “saneamento dos 24”. Dezenas de jornalistas da redação compuseram um abaixo-assinado que reivindicava a revisão do editorial do jornal. O documento foi publicado pela BBC e pelo Expresso.

A Noite trata do jornalismo como 4º poder e leva a refletir sobre as linhas editoriais em tempo de ditatura e censura explícita e em tempos de democracia influenciada por interesses políticos específicos. O espetáculo me faz pensar no Teatro-Jornal, do Teatro do Oprimido, de Boal, em que a cena representa aquilo que foi calado na imprensa ou em parte dela. A Noite é um belo espetáculo, mas também um documento histórico importante da história das comunicações em Portugal.

O programa da peça é um charme: em formato de jornal, e as frases projetadas ao fundo do palco são escritas com o som de máquinas de escrever. A Noite poderia ser um filme ou documentário, de tão realista, mas é no teatro que sentimos mais dentro da redação.

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