O Teatro e a Política hoje e sempre

Mariana M. Braga

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Desculpem-me pela ausência. Estive em Portugal para o Colóquio Internacional Teatro: Estética e Poder, na Universidade de Lisboa. Foi uma experiência fantástica que resumirei neste post. Também publicarei posteriormente duas críticas sobre as peças a que assisti durante esses dias no velho mundo: A Noite, única obra dramatúrgica de José Saramago, e o clássico À Espera de Godot, de Samuel Beckett.

Vou destacar alguns dos pontos que elegi como os mais importantes das comunicações que assisti durante o congresso. Na abertura tivemos a plenária do professor Kristof Jacek Kozak sobre a tragédia hoje. Acredito que boa parte dos participantes já estavam anteriormente convencidos da necessidade da tragédia nos nossos dias, mas o estudo de Kozak serviu de base teórica para aquilo que presenciamos na prática de espectadores e artistas de teatro.

Se a base da tragédia é a contradição, e se a princípio ela trazia à humanidade o mundo ideal, o mundo contemporâneo apresenta sistemas de organização que nos fazem interrogar sobre se este é realmente um bom mundo. O mundo ideal, adicionado à massa de pessoas globalizadas, traz a ideia de liberdade, mas também de vazio. O objetivo do nosso tempo é claro – e sustentado por Bauman: todos temos que ser felizes. Nosso inimigo é coletivo e a única forma de representar o contemporâneo parece ser mesmo a tragédia, portanto não há a morte dela, como defendia George Steiner.

Depois da plenária, assisti à interessante comunicação da professora Ester Katona, sobre a importância dos teatros ambulantes na vida cultural da Segunda República espanhola, período em que houve grandes esforços educativos e a cultura era vista como justiça social.  Nesse momento aparece, por exemplo, La Barraca, o grupo formado por estudantes dirigido por Federico García Lorca. Também houve El Búho, que, além de levar obras clássicas à população, era composto pelo teatro de circunstâncias, com obras modernas de caráter político. Teatro inovador e experimental também figuravam o repertório de El Búho, como as peças lorquianas.

Na sexta-feira (22) tive a honra de dividir a mesa com Júlio Martín da Fonseca e Diego Santos Sánchez, além da intermediação da professora Maria Helena Werneck. Diego Santos tratou, a partir dos aparatos ideológicos de Estado de Althusser, o que Santos chama de “aparatos teatrales de Estado”, a partir do período ditatorial e de censura por que passou a Espanha com o Franquismo. Já Martín da Fonseca trouxe um estudo sobre a até pouco desconhecida – e censurada pelo próprio autor – primeira peça de Jean-Paul Sartre, Barioná, em que surpreendentemente o escritor descreve uma experiência de Mistério de Natal. Apresentada em Tréveris, na Alemanha, onde o autor esteve preso, foi vista por mais de 2 mil prisioneiros.

Já a minha apresentação tratou do legado de Augusto Boal: “O Teatro e a Estética do Oprimido: o ser humano como ser artista contra a opressão social”, ressaltando a interface teatro e educação. Quem quiser saber um pouco mais sobre o Oprimido, eu já falei sobre ele brevemente aqui.

Ainda estive em contato com a comunicação da professora Maria Helena Werneck, sobre miniaturas de poder e profanações na dramaturgia brasileira contemporânea, a partir da jovem dramaturga e artista Grace Passô. Em seguida, assisti à comunicação do artista e pesquisador Marcelo Sousa, sobre a arte nas cidades e a vivência nos espaços públicos como palcos de embate. Seu trabalho me lembrou das aulas de José Carlos Fernandes, sobre a utilização dos espaços públicos e a relação indivíduos e a cidade. Deixo aqui um vídeo sobre a atividade de Marcelo Sousa: 

Ainda devo destacar a comunicação de Marija Paprasarovski, sobre a autora croata Ivana Sajko, que apresenta uma fronteira entre representação teatral e performance e a plenária da professora Arlete Cavalari sobre a cena russa pós-moderna, entre clássicos nomes como Dostoievski e a nova cultura de massa.

Pensar na interface teatro e política é fundamental para pesquisadores de diversas áreas das ciências humanas, letras e artes. Seja arte engajada ou arte pela arte, o teatro é sempre um ato inserido em um contexto político, com intenções e olhares críticos específicos sobre ele. O teatro atravessou a história e permanece vivo, forte. É a quinta arte, mas a nossa primeira mídia.

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