Viver de teatro é correr contra um furacão

Mariana M. Braga

Muitos carros na rua, muitas contas a pagar. Está tudo muito caro. Muitos cursos a fazer, muitos diplomas a acumular. Trainees, entrevistas, milhares de opções – muitas tentativas no caminho. O objetivo: ser bem sucedido. Esse deve ser o grande objetivo do nosso tempo: ser bem sucedido, como sinônimo de ser feliz. Quem é feliz de outro jeito é quase alienígena. É realmente ir contra a maré, a corrente. Correr no sentido contrário de um furacão.

Onde se encontra o teatro em uma realidade contemporânea de necessidade de ser bem sucedido? Quando dizemos que queremos ter o teatro como área de profissão é como se as pessoas tivessem um embrulho no estômago. “Como assim?” É como se falássemos outra língua. O diálogo torna-se incompreensível. É difícil falar de algo de que as pessoas não entendem, simplesmente porque teatro é uma experiência muito particular. Quem sentiu aquele prazer entende, quem não sentiu só consegue julgar com a ideia que tem mais força no nosso tempo: é preciso ser bem sucedido.

Nada contra quem faz teatro apenas por lazer, assim como há pessoas que fazem esporte por lazer e outras que vivem dele. Mas o teatro não perdeu sua importância. Ele não ficou lá atrás com os gregos, nem com os classicistas: atravessou os séculos. Ainda que essa sociedade acredite que é só nos números, no direito e na medicina que as coisas andam, o teatro é ainda a vida de muita gente e compõe a cultura de muitas cidades.

É exatamente nessa realidade contemporânea que a tragédia se refaz, se reforma e se faz necessária para interpretar e representar nossos novos contextos. Da mesma forma, a comédia relê todos os nossos defeitos em cena. E o que é o teatro contemporâneo senão um reflexo dos nossos dias compostos por tantas informações e funções? No teatro refletimos sobre o nosso tempo e o registramos em cena. O intelectual casa com a expressão corporal numa ação libertadora, que faz o ser humano do nosso tempo, tão robotizado, ser capaz de se libertar e se transformar em tudo o que ele quiser ser.

Ninguém é obrigado a querer viver de arte nos dias de hoje. É bem mais fácil seguir a maré e o bolso normalmente agradece. Mas não é justo julgar quem acha que esse nosso contexto quase maquinal é muito pouco para o que sua existência é capaz. Deixem-nos ser artistas. É o nosso sonho e nossos corpos precisam disso. A sociedade também.

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