FTC – Quando estamos todos no escuro – sobre Espelho para Cegos

Mariana M. Braga

ESPELHO PARA CEGOS

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A peça é no gigante Teatro da Reitoria, mas ficamos pertinho dos atores. Estamos todos no palco, por todos os lados. É mais do que um teatro de arena, porque alguns de nós ficamos realmente ao lado dos atores. Estamos todos fazendo parte do que acontece em cena. Nem coxias existem. O terceiro sinal toca e as cortinas do teatro se fecham, deixando mais claro que nosso universo agora é o palco. Todos estamos ali para vivenciar uma releitura  de Teatro Decomposto  ou O Homem Lixo, do romeno Matéi Visniec.

Há projeção de vídeo em uma das paredes. Outras vão aparecer ao longo da peça, todas tratando de uma lavagem cerebral dos cidadãos: o primeiro vídeo aparece como uma propaganda, que busca mostrar os benefícios da lavagem, como se fosse a venda de um tratamento terapêutico. Nos vídeos projetados mais tarde, mesclados às narrações e às ações vividas pelas personagens, fica mais clara a imposição feita aos cidadãos dessa lavagem cerebral, com imagens que remetem à ditadura de regimes totalitários. Também há um vídeo que mostra a reunião de pessoas do poder planejando a aplicação e as regras da lavagem cerebral.

As metáforas continuam nas narrações das personagens e nos conflitos vividos por elas. Em pequenos monólogos, as personagens contam sobre a praga de borboletas, o primeiro grande problema de uma sociedade, em seguida da praga de caracóis, que teria sido pior ainda, e do animal-chuva que consumiria todo o conteúdo das coisas. O mundo se desconstrói ainda mais para o jovem que logo se vê completamente sozinho no mundo, perseguido por telefones que tocam como se fantasmas o chamassem.

Outro homem é consumido por um animal de quatro bocas e consente com sua própria morte, sem muito reagir. Ainda diante da sociedade submetida a um poder com valores invertidos, vemos uma cena que revela a comunicação falha entre poder e sociedade, em uma grande Babel: um personagem é torturado por dois homens – segundo eles, pelo fato de o jovem não repetir a palavra “barbante”, sendo que este a repetiu diversas vezes desesperado tentando evitar apanhar.

Esse mesmo homem torturado fala do círculo que construímos, que criamos em torno de nós e dentro do qual só cabemos sozinhos. O círculo é o individualismo, visto em todos os lugares – nas salas de espera, nas ruas, em casa. O individualismo é uma armadilha dos poderosos, aqueles que querem a lavagem cerebral.

As metáforas também estão presentes nos momentos de escuridão com black-outs na encenação. Algumas vezes aparecem os jatos de luz. Ao final, a revolução. Com as ordens de uma personagem, que repete os mandos de outra que a segura, a massa grita que tem a solução. As vozes são caladas uma a uma, enquanto um se sente livre por matar o outro e comemora sua própria vitória. Sucessivamente quase todos se matam. Só uma personagem fica e desabafa: Merda.

Estamos todos no escuro, matando todos os discursos e todos os seus defensores. A vitória não é de ninguém. Continuamos todos dentro dos nossos círculos individualistas. Essa é a minha visão, mas cada um que esteve naquele palco deve ter tido sua própria reflexão, muito peculiar. Visniec é um autor muito discutido mundo afora e é muito bom poder ter uma leitura sobre ele em um palco nosso em Curitiba.

 

Ficha técnica

 

  • Texto:Matéi Visniec
  • Encenação, cenário e iluminação:Marcio Meirelles
  • Direção de elenco:Bertho Filho
  • Elenco:Anita Bueno, Sonia Robatto, Neyde Moura, Zeca de Abreu, Franklim Alburqueque, Claudio Varela, Roberto Nascimento, Tiago Querino, Vinicius Bustani e Yan Britto
  • Música:João Milet Meirelles
  • Video:Apoena Serrat, Maise Xavier, Bertho Filho, Rafael Grilo e Franklin Alburqueque
  • Figurino:Giza Vasconcelos
  • Maquiagem:Luiz Santana
  • Coordenação de Produção:Zeca de Abreu
  • Locução em vídeos:Bertho Filho, Fernando Fulco, Neide Moura e Will Brandão
  • Operador de luz:Vado Souza
  • Operador de som:Cesar Rasec
  • Operador de vídeo:Rafael Grilo
  • Realização:Cia de Teatro dos Novos / Universidade LIVRE de Teatro Vila Velha

 

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