FTC – Valsa n. 6 contada por 3

Mariana M. Braga

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Fui ver a Valsa n. 6, de Nelson Rodrigues, na direção de Marcus di Bello, da Companhia do Elefante, no Festival de Curitiba. Criei expectativas sobre a peça desde que vi que ela estaria em cartaz dentro do Fringe. A Valsa foi a última peça em que atuei e que codirigi com Fernanda Vilar em uma temporada na École Normale Supérieure de Lyon, na França. Nelson Rodrigues foi meu tema de pesquisa nos dois anos de mestrado, dentro de um projeto pessoal e profissional de tornar as peças rodrigueanas mais conhecidas no país dos queijos e vinhos. Por isso criei o site nelsonrodrigues.fr, realizei a peça em Lyon e dei uma palestra em Paris durante um evento em comemoração ao centenário do autor. Tudo isso para explicar a razão que me levou a criar expectativas sobre essa montagem da minha peça rodrigueana preferida.

Quando entrei no espaço da Casa Hoffmann e encontrei as atrizes já em cena, de vestido branco e com o rosto dentro de uma máscara e penduradas por um véu, poucos objetos em cena e um pano branco translúcido ao fundo, tive a sensação de que não iria me decepcionar. Era uma atmosfera de Valsa n. 6, muito parecida com a que Fernanda Vilar e eu criamos ano passado e, mais do que isso, que combina com o texto de Nelson Rodrigues.

Na nossa montagem em Lyon, a personagem Sônia foi interpretada por duas atrizes, de forma a tornar mais evidente a distinção entre o lado mulher e o lado menina da jovem assassinada que ainda não se descobriu morta. Na montagem da Cia. do Elefante são três atrizes, também vestidas da mesma forma. A divisão de falas entre três pessoas torna o texto mais fluído, já que o monólogo é um retalho de diversas intenções que se intercalam em contextos desconexos, refletindo as dúvidas de uma menina que não entende quem e o que ela é.

Sobre essa divisão da Sônia em três, fica minha única crítica negativa à peça: ao final, depois da impactante fala “O morto nem sabe que morreu” – que para mim é a frase que simboliza e justifica toda a peça -, as atrizes se apresentam dizendo seus nomes, afirmando que elas viveram Sônia e que esta foi assassinada. Parece uma forma didática que explica o texto rodrigueano e desfaz o nó que sua complexidade nos deixa na cabeça. Ainda assim, eu tiraria esse fim escolhido pela Cia. do Elefante, porque o final escolhido por Nelson é suficiente para a compreensão do texto e finaliza uma reflexão interessante sobre a morte. E, ainda que uma parte do público não entenda esse ponto da peça ou não perceba que as três atrizes vivem a mesma Sônia, acho que é melhor deixar o espectador refletir sozinho sobre isso e entender como tiver que entender, já que a arte é tão subjetiva na sua produção quanto na sua recepção.

Fora esse meu ponto bem particular, o espetáculo está lindo. As atrizes transmitem as mais diversas e controversas emoções da personagem, transitando entre elas com naturalidade, sem cortes bruscos.

Alguns recursos de direção são muito interessantes: um megafone que uma das Sônias utiliza atrás do pano translúcido, cantando músicas infantis e dando risada, enquanto as outras Sônias atuam diante do público. Foi uma ótima solução para a proposta do texto do Nelson de dar lances de memórias da infância à jovem que, numa fase de transição, também se comporta como mulher.

Apesar de Nelson descrever a presença de um piano que Sônia toca diversas vezes ao longo da peça, já que a personagem foi morta enquanto tocava a Valsa n. 6, de Chopin, na montagem da Cia. do Elefante as atrizes não se sentam para tocar em nenhum momento e não há nada que o represente além de um pequeno instrumento com as teclas de um pianinho. A própria valsa toca poucas vezes ao longo dos 50 minutos de peça. Mas isso não é um problema, apenas uma opção da direção e que de nada atrapalhou o entendimento da trama rodrigueana. Na montagem que eu e Fernanda fizemos, os pianos eram invisíveis, mas tinham lugares fixos e os tocávamos todas as vezes citadas no texto. Essa comparação serve apenas para uma prazerosa constatação de que a direção é uma arte muito subjetiva e há inúmeras maneiras de transmitir um mesmo texto.

Da nossa montagem na França, uma crítica negativa que nos fizeram foi o uso de lanternas, que utilizávamos para dar mais movimento de luz em cena, já que não tínhamos muitos recursos. As lantenas também destacam o rosto pálido da Sônia morta. Também as utilizamos nos momentos de interação com o público. Na montagem da Cia. do Elefante as atrizes também lançaram mão de lanternas e, agora como espectadora, vejo que o efeito é realmente lindo. Elas são um recurso realmente complicado porque podem poluir a cena, mas para esse monólogo de Nelson Rodrigues parecem feitas sob medida, assim como o vestido branco e o véu.

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Para quem não pôde ver a peça no Fringe, acompanhe o trabalho do grupo pelo Facebook.

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