Política em Cena

Mariana M. Braga

O meu texto abaixo foi publicado na Gazeta do Povo, no caderno Vida na Universidade, pela página do Instituto Atuação de hoje.

 

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Política em cena

Em um debate sobre o Festival de Teatro de Curitiba deste ano, muito se falou sobre a forte presença do teatro político na programação dos espetáculos. “Teatro político” é uma expressão que me incomoda porque, apesar de saber que há peças mais engajadas do que outras, sei que o teatro é político por natureza. Téspis, considerado o primeiro ator da história, teria sido o primeiro a responder ao coro das festas dionisíacas, interpretando e satirizando o imperador. Em “Teatro do Oprimido e outras poéticas públicas”, Boal chama a atenção para a estrutura grega de teatro, entre personagens principais, que representavam os aristocratas, e o coro, que representava a massa, o que é um forte reflexo da sociedade e da política ateniense.

Os gêneros teatrais nascem por contextos políticos diferentes. O que foi o drama histórico senão o reflexo de contextos políticos e registros de época, como as peças de Shakespeare que, embora contenham diversos elementos trágicos fictícios, são todas inspiradas em fatos da Inglaterra elisabetana? E o que dizemos sobre a Commedia dell’arte, que tinha personagens fixos estereotipados, para satirizar determinadas classes sociais?

A arte é política, apesar de nem sempre ser politizada. O teatro que se convencionou chamar de “político” defende claramente uma posição política em sua mensagem, no conflito dramático. Assim foram várias peças brasileiras dos tempos de ditadura militar, que geraram censura e exílio a atores, dramaturgos e diretores.

Teatro essencialmente político foi o Teatro do Oprimido, criado por Augusto Boal e hoje presente no mundo todo, com a obra traduzida em mais de 20 línguas. Boal criou técnicas teatrais a serem realizadas por profissionais e não-profissionais – porque para ele todo o ser humano é artista-, para promover a democratização dos meios de produção teatral e transformar a realidade social, colocando fim a todo o tipo de opressão.

Isso não quer dizer que dramaturgos como Nelson Rodrigues – que dizia se recusar a colocar em cena temas do contexto político de ditadura militar – tenham feito teatro apolítico. A própria escolha de não fazer um teatro essencialmente engajado é uma forte posição política. Quando Nelson Rodrigues decidiu fazer arte pela arte, ele se posicionou contra os artistas de esquerda que queriam o fim da ditadura. Mesmo assim, ele revolucionou a cena brasileira, colocando no palco o seu chamado “teatro desagradável”, que provocava e ao mesmo tempo representava a burguesia carioca do século XX. Impossível, portanto, dizer que o teatro rodrigueano não é político.

Em “Cultura posta em questão”, Ferreira Gullar reflete sobre o papel dos artistas, categorizando-os entre “comprometidos” e “descomprometidos” em relação à política, deixando claro que, para ele, é impossível o artista estar preocupado apenas com a estética de sua arte:

“Não se pode exigir do artista que ele continue a ser, em nossa época, um instintivo, cego à realidade que o cerca e indiferente à injustiça que, com sua conivência, esmaga os seus semelhantes. Tampouco pode ele aceitar a tese absurda de que sua visão do mundo, sua condição de homem, nada tem a ver com sua atividade de artista”.

O teatro nasceu político e todas as suas manifestações, sejam elas da tragédia grega, sejam do teatro contemporâneo, são formas de representação de uma realidade política, para refleti-la, criticá-la, reproduzi-la ou transformá-la. No dia em que houver maior entendimento de como a arte é fundamental na educação e na política das nossas sociedades, talvez os espetáculos teatrais tenham, de novo, a quantidade de gente na plateia que eles merecem ter.

 

Mariana Marcondes Braga é jornalista recém-formada pela UFPR, mestra em Artes Cênicas pela École Normale Supérieure de Lyon e coordenadora de Educação do Instituto Atuação.

 

 

 

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