O Beijo que canta

 

O-beijo-no-asfalto

O beijo mais polêmico da história do teatro brasileiro foi escrito por Nelson Rodrigues em 1960. De lá para cá, O Beijo no Asfalto já foi encenado em palcos de todo o país e afora. Também foi registrado pelas lentes cinematográficas em 1964 (na direção de Flávio Tabellini) e em 1981 (Bruno Barreto). Mas eu nunca tinha visto esse clássico do chamado “teatro desagradável” rodrigueano em musical, como o dirigido por João Fonseca, que me fez lembrar das montagens da Broadway.

Ao longo do meu mestrado sobre Nelson Rodrigues, reli diversas vezes a peça e em nenhum momento pensei que algo poderia ser acrescentado a ela. O Beijo pode ser considerado um dos textos dramatúrgicos rodrigueanos mais redondos. Parece não ter o que encaixar, muito menos algo ousado, sobretudo porque as peças do Nelson cutucam o mais rústico do nosso ser. Mas O Beijo no Asfalto – O Musical mostrou que as notas musicais gritavam, antes em silêncio, dentro das personagens e podem ser a saída para a expressão da complexidade do ser humano nas criações rodrigueanas que beiram e às vezes mergulham no caricatural. Nelson dizia que trabalhava com monstros, que “superam ou violam a moral prática e cotidiana”. Tarados, loucos varridos e futuros suicidas são, para ele, “seres maravilhosamente teatrais”.

O espetáculo canta as dores, os amores e o Rio de Janeiro flertado por toda a obra rodrigueana. Samba sobre os mais profundos desejos e os preconceitos. Canta a corrupção da imprensa e da polícia, além da injustiça da opinião pública, assuntos sempre atuais e simbolizados na peça pela criação sensacionalista em cima de um beijo entre dois estranhos antes da morte de um deles.

Foi um pedido, segundos antes de morrer. O que você faria se uma pessoa, cujo coração está prestes a parar de bater, te pedisse um beijo? O que você faria se seu marido, ou colega, ou genro, beijasse um estranho como último pedido? Acho que quase todos nós agiríamos como os terríveis personagens da peça.

Nelson nos escancara na sua dramaturgia e nos aponta o que temos de pior. No musical, tudo é vivido, gritado, dançado e cantado. E ainda rimos com personagens como Werneck, que brilha na graça do ator curitibano Gabriel Stauffer. Só poderia dar certo com artistas tão completos. Com eles, e ao som deles, O Beijo fica ainda mais brasileiro. Batata.

Continuo aplaudindo de pé. Parabéns aos profissionais da arte que se dedicaram ao espetáculo e ao Festival de Curitiba por trazerem essa maravilha para os palcos curitibanos.

 

Mariana Braga

 

ELENCO:

Arandir – CLAUDIO LINS

Selminha – IZABELLA BICALHO

Dália – YASMIN GOMLEVSKY

Aprígio – GRACINDO JR. (Ator Convidado)

Cunha – CLAUDIO TOVAR

Amado Ribeiro – THELMO FERNANDES

Aruba – JORGE MAYA

Mathilde – JANAÏNA AZEVEDO

Werneck – GABRIEL STAUFFER

Morto – PABLO ÁSCOLI

Viúva – JULIANE BODINI

Pimentel – RICARDO SOUZEDO

Judith – JULIANA MARINS

 

Ficha técnica:
Direção Geral: JOÃO FONSECA
Trilha Original: CLAUDIO LINS
Direção Musical: DÉLIA FISCHER
Figurinos: CLAUDIO TOVAR
Cenário: NELLO MARRESE
Iluminação: LUIS PAULO NENÉN
Direção de Movimento: SUELI GUERRA
Engenheiro de Som: CARLOS ESTEVES
Arranjos e Programações Eletrônicas: HEBERTH SOUZA
Arranjos Vocais: AUGUSTO ORDINE
Assistente de direção: LUCAS MASSANO
Estagiário de direção: PHILIPE CARNEIRO
Pianista Ensaiadora e Assistente Direção Musical: EVELYNE GARCIA
Assistente de Figurino: THIAGO DETOFOL
Assistente de Cenografia: LORENA LIMA
Assistente de Direção de Movimento: PRISCILA VIDCA
Preparação Vocal: JANAÍNA AZEVEDO
Visagismo: MARCIA ELIAS
Costureiras: NICE SANTOS SILVA, ELIANA CUNHA & FÁTIMA LIMA
Cenotécnico: ANDRÉ SALLES
Camareiras: NICE SANTOS SILVA & LUCI MOREIRA
Contrarregras: JOÃO PAULO DAMATTA & DARTANHAN ASSUMPÇÃO
Operadores de Luz: DUDU NOBRE & MARCELO ANDRADE

 

Operador de Canhão: LUIZ CORRÊA
Operadores de Som: DANIEL WALLY & LEO MAIA
Microfonista: CAMILLE LAGO
Coach do ator Gracindo Jr: MARCÉU PIERROTTI
Comunicação e Imagem: MIDIORAMA
Designer Gráfico: LEO STORCH
Assistente de Designer Gráfico: RENATO REI
Fotografias e videos: RENATO PAGLIACCI
Marketing Cultural: GHEU TIBÉRIO
Assistente de Marketing Cultural: ANDRÉA TONIA

Músicos:
Piano e regência: EVELYNE GARCIA/HEBERTH SOUZA
Baixo: MATIAS CORREA/PEDRO AUNE
Bateria e percussão: CLAUDIO LIMA
Trombone: WANDERSON CUNHA/BEBETO  GERMANO
Sax, clarinete e flauta: ALEX FREITAS/RAPHAEL  NOCCHI
Coordenação financeira: COARTE
2ª assistente de produção: LAURA RODRIGUES VELHO
Produtora assistente: TAIANA STORQUE
Produção Executiva: ANA BEATRIZ FIGUERAS

Direção de Produção: ISABEL THEMUDO

IDEALIZAÇÃO: CLAUDIO LINS

Texto publicado por Mariana Braga no Paraná Portal, 30/03/2016

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