O corpo presente

“Eu sempre considerei a arte do ator como a arte de se colcoar a serviço de uma história com seu corpo”, Delphine Eliet. (J’ai toujours considéré l’art de l’acteur comme l’art de se mettre au service d’une histoire avec son corps)

Olá!

Para começar minhas postagens sobre minha experiência e meus estudos em teatro, escolhi postar o artigo em que relato a experiência dos quatro dias de contato com a Técnica de Corfimação Intuitiva e Corporal (Technique de Confirmation Intuitive et Corporelle) de Delphine Eliet, da École du Jeu, de Paris. Um texto bem subjetivo, já que a transformação pessoal que este método provocou foi muito importante, com uma breve análise e comparação da técnica de Delphine com alguns conceitos de psicanálise e yoga. O texto original, que escrevi em francês, encontra-se logo abaixo da versão em português.

Espero que gostem.

Durante esses quatro dias de trabalho intenso, eu “me deixei atravessar”, como pede o método de formação de Delphine Eliet, pelas emoções que nascem naturalmente, sem que eu as programe. Pelas pulsões e pela intuição. Essa espontaneidade nos leva a uma realidade cênica onde o público não nos impõe medo, mas nos impulsiona. Depois desses quatro dias, eu me tornei uma nova Mariana, mais corajosa porque menos preocupada com meus movimentos e a impressão que eles podem provocar aos outros. Eu me censuro menos e não me preocupo mais em conseguir provocar algum efeito: eu acredito nos meus sentimentos, os vivo e eu os ponho à prova sem nenhum objetivo definido e limitante. Essa construção natural de vida leva ao prazer.

Dessa forma, não há espaço para os clichês. As idéias construídas socialmente em relação aos sentimentos, as convenções, os gestos exagerados e as expressões barrocas, tudo o que pode ser “forçado” e por isso impreciso desaparece quando nós alcançamos esse nível de intensidade das nossas emoções, da qual o corpo livre é o principal responsável.

A pulsão e o exterior

         De que se trata então o « se deixar atravessar por » ? Todas as vezes em que o trabalho com Delphine Eliet e meus colegas me levou à reflexão sobre a importância de fazer o corpo mexer sem hesitar, inspirado pela energia distribuída por todas as partes, como o fazem as crianças, eu pensei no constante conflito humano, proposto pela psicanálise, por exemplo, entre as convenções sociais e as pulsões.

         Quando uma criança brinca, ela não pensa no que ela deve fazer para alcançar seu prazer, ele não reflete sobre o que ela é capaz ou não de fazer, não julga algo bobo ou inteligente. É por isso que ela sabe melhor do que os adultos como tratar do “eu não sei de nada”, do fato de não conhecer aquilo que ela criará em seguida. Durante esses primeiros anos, a criação só busca seu prazer e nesta pesquisa ele encontra imposições externas, julgamentos, proibições. Este contato com o mundo, ou seja “o Outro”, modela o ser humano e cria um bloqueio aos desejos pessoais. Estar em cena em plenitude seria, então, alcançar seu estado infantil interior à tensão proposta pelo seu meio.

O conceito de pulsão na Psicanálise é obrigatória paro compreender todas as suas outras teorias. Trata-se de uma força originária do inconsciente que tem um objetivo final de prazer, um objeto e uma fonte. A pulsão pode buscar uma realização anal, oral ou de destruição, por exemplo. De todas as formas, o objetivo é sempre de alcançar o prazer (mesmo no sofrimento). A pulsão é constante, composta também por pulsões parciais que buscam unicamente o prazer do organismo.

Quando o desprazer é maior que o prazer de atingir o objetivo de uma pulsão – normalmente por causa de uma pressão social – ela pode seguir quatro destinos diferentes: uma sublimação, uma repressão dessa pulsão, uma inversão dela ao seu contrário, um retorno à própria pessoa. Nós podemos distinguir três tipos de repressão – a primária ou original, a secundária e o retorno do recalcado. (S. FREUD,  Pulsions et destins des pulsions, 1915, S. FREUD, Trois essais sur la théorie de la sexualité, 1905)

Ao longo to tempo, então, há recalques que não deixam nenhuma marca de existência, porque foram bem realizados. Outros reaparecem e podem ser percebidos através dos sonhos, dos atos falhos, dos lapsos e dos chistes, por exemplo. Os sinais só são possíveis através do relaxamento do superego, a parte da nossa consciência que fiscaliza nós mesmos.

O superego é o produto da renúncia às pulsões, resultante da fiscalização sobre o ego, introjetando as pulsões amorosas em relação aos pais e as sádicas impedindo de se dirigir ao exterior. O superego é então responsável pelas idealizações do sujeito em relação a ele mesmo, sobre o que ele deve ser.

Em cena, durante o trabalho de Delphine Eliet, eu senti que vivi um estado em que eu me censurava menos. Poderíamos dizer que eu tornei meu superego mais fraco, mas os termos aqui são os menos importantes. A idéia que me interessa é que esta experiência me fez ter menos hesitações, menos preocupações e auto-crítica. Esses pré-julgamentos perderam força, enquanto minha intuição, o mais profundo dos meus sentimentos – e por que não “meu inconsciente”- se tornaram mais livres. Dessa forma, eu me tornei um ser criador mais vivo e particular : eu mesma, que é também várias outras ao mesmo tempo. E tudo isso começa pela nossa própria energia.

Antes de qualquer objetivo artístico, a posição zero, a distribuição de energia e a respiração constituem um trabalho com o corpo humano que o enriquece como organismo. Para os autores, o desenvolvimento de suas qualidades se tornam ainda mais importante porque o corpo humano é o seu instrumento de trabalho.Imagem

O corpo presente

Esta pesquisa sobre o próprio corpo através da difusão de energia me faz pensar no Kundalini Yoga. Uma vertente do yoga com mais movimentação que os outros, ele consiste em aumentar a energia criativa denominada Kundalini, normalmente adormecida nas colunas, para atingir a emanação do infinito, nossa energia do cosmos.

O Yoga Kundalini chegou ao ocidente graças a Yogi Bhajan que partiu da Índia em 1969 para tornar conhecido o método milenar nos Estados Unidos. Assim, ele propõe tornar viva a energa Kundalini entre as preocupações cotidianas encontradas no ritmo ocidental, como a rotina de trabalho. Essa vertente de yoga chega assim a ser mais concreta que as outras, pois quando o corpo se mexe o espírito se destaca mais facilmente dos pensamentos referentes às preocupações de cada dia, o que não acontece tão evidentemente nos outros métodos de yoga, tendo em vista que quando tentamos nos concentrar em uma posição de repouso, somente o espírito concentra as energias que, normalmente, são desviadas a outros pensamentos.

Nos nossos exercícios da Técnica de Formação Intuitiva e Corporal, nos encontramos também em uma realidade onde era necessário desconcentrar a força, as emoções e a energia da cabeça para distribuí-las pelo corpo. Aprendemos que é muito importante abrir os olhos para fazer os exercícios e deixar a cabeça seguir livremente com o movimento do corpo.

Nós acordamos cada parte do nosso corpo. Aquelas que não sentíamos muito se tornaram aquilo o que nos impulsionava a criar. Nós obtivemos consciência de nossos corpos e é por isso que pudemos criar.

*

Cada dia foi um novo desfaio. E cada fim de tarde nós tínhamos um corpo maior, mais poderoso e capaz de criar. Perto das seis horas da tarde, nós começavamos a descrever os sentimentos em relação ao que tínhamos vivido. E cada fim de dia as pessoas estavam mais encantadas por esse trabalho.

Se no primeiro dia hesitávamos antes de subir no palco para compor um semi-grupo e executar um exercício, no último dia já tinha muita gente disposta e alguns tiveram que descer e esperar sua vez. Se na segunda-feira o exercicio “eu me chamo” nos assustava um pouco, na quinta ele nos tentava, nos convidava a atuar, sem refletir sobre isso, sem pensar nas consequências.

Nós aprendemos a saber olhar o público e a conviver com ele, sem ter medo. E também a transmitir nossas energias pelos nossos olhos, posturas, gestos e vozes. Além disso, aprendemos a ser espectadores e a sentir as emoções que vêm dos atores. E isso era muito prazeroso.

Trata-se de um prazer que começa com a intimidade. É antes de tudo uma intimidade com nós mesmos, nossas vontades, sentimentos, intuição e corpo. Em seguida, é conhecer os colegas, saber oferecê-los o que nós temos e receber aquilo o que têm a nos oferecer. Também é uma intimidade com o público, o palco, o teatro.

Depois dessa experiência eu posso dizer que conheço meus colegas. Aqueles que eu via nos corredores, que me cumprimentavam ou nem mesmo isso, que eu via escrever durante as aulas, falar um pouco, tomar um café. No palco eu vi quem eles são de verdade. Eu os vi sensíveis, intensos, vivos. E depois desses quatro dias eu descobri uma nova “eu” também. É por isso que eu guardei um dos cartazes dessa Master-class e a colei na minha parede. Eu acho que, mesmo que eu já tenha estado inúmeras vezes sobre o palco, meu corpo nunca esteve verdadeiramente “encarnado” antes desses quatro dias.

Quer saber mais? Entre no site da École du Jeu: http://www.ecoledujeu.com/

MARIANA MARCONDES BRAGA

– en français –

Pendant ces quatre journées de travail intense, je me suis laissée traverser par. Par les émotions qui naissent naturellement, sans que je les programme. Par les impulsions et l’intuition. Et cette spontaneité nous amène à une réalité scénique où le public ne nous fait pas peur, mais nous pousse. Après ces quatre jours, je suis devenue une nouvelle Mariana, plus courageuse puisque moins soucieuse de mes mouvements et de l’impression qu’ils peuvent provoquer chez les autres. Je me censure moins et je ne me préoccupe plus de réussir à provoquer un effet : je crois à mes sentiments, je les vis et je les essaie, sans aucun but défini et limitant. Cette construction naturelle de vie aboutit au plaisir.

            De cette façon il n’y a pas de place pour les clichés. Les idées construites socialement par rapport aux sentiments, les conventions, les gestes exagérés et les expressions barroques, tout ce qui peut être en force et donc pas juste disparaît quand on atteint ce niveau d’intensité de nos émotions, dont le corps libre est le principal responsable.

 

La pulsion et l’extérieur

 

            De quoi s’agit-il donc de se laisser traverser par ? Toutes les fois que le travail avec Delphine Eliet et mes collègues m’a amenée à la réfléxion sur l’importance de faire le corps bouger sans hésiter, inspiré par l’énergie distribuée par toutes ses parties, comme le fait les enfants, j’ai pensé au constant conflit humain, proposé par la psychanalyse par exemple, entre les conventions sociales et les pulsions.

            Quand un enfant joue, il ne pense pas à ce qu’il doit faire pour atteindre le plaisir, il ne réfléchit pas sur ce qu’il est capable de faire ou pas, il ne pense pas si c’est bête ou intelligent. C’est pour cette raison qu’il sait mieux que les adults comment traiter du « je ne sais rien », du fait de ne pas connaître ce qu’il créera ensuite. Pendant ses premières années, l’enfant ne cherche que son plaisir et c’est dans cette recherche qu’il trouve des impositions extérieures, des jugements, des interdits. Ce contact avec le monde, voire l’Autre, modèle l’être humain et crée un blocage aux désirs personnels. Être sur scène en plénitude serait donc d’atteindre son état enfantin antérieur à la tension posée par l’environnement.

Le concept de « pulsion » dans la psychanalyse est obligatoire pour comprendre toutes ses autres théories. Il s’agit d’une poussé originaire de l’inconscient qui a un but finale de plaisir, un objet et une source. La pulsion peut viser une réalisation anale, orale ou de destruction, par exemple. De toute façon, le but en est toujours d’atteindre le plaisir (même dans la souffrance). La  pulsion est constante, composée aussi par des pulsions partielles qui ne visent rien d’autre que le plaisir de l’organe.

Quand le déplaisir est plus grand que le plaisir d’atteindre le but d’une pulsion – généralement à cause d’une pression sociale – elle peut suivre quatre destins différents : une sublimation, un refoulement de cette pulsion, un renversement d’elle à son contraire, ou un retournement sur la propre personne. On peut distinguer trois types de refoulement – le primaire ou l’originaire, le secondaire ou après coup et le retour du refoulé. (S. FREUD,  Pulsions et destins des pulsions, 1915, S. FREUD, Trois essais sur la théorie de la sexualité, 1905)

Au fil des temps, donc, il y a des refoulements qui ne laissent aucune trace d’existance, parce qu’ils furent très bien faits. Par contre, il y a d’autres qui reviennent et peuvent êtres remarqués sensiblement à travers les rêves, les actes manqués, les lapsus et les chistes, par exemple. Ces signes ne sont possibles qu’à travers la détente du surmoi, la partie de notre conscience qui surveille à nous mêmes.

Le surmoi est le produit de la renonciation aux pulsions, résultante de la surveillance sur le moi en introjectant les pulsions amoureuses par rapport aux parents et les sadiques en les empêchant de se diriger vers l’extérieur. Le surmoi est donc responsable des idéalisations du sujet par rapport à lui même, à ce qu’il doit être.

Sur scène, pendant le travail avec Delphine Eliet, j’ai senti que j’ai vécu un état où je me censurais moins. On pourrait dire que j’ai rendu mon surmoi plus faible, mais les termes y sont les moins importants. L’idée qui m’intéresse est que cette expérience m’a fait avoir moins d’hésitations, moins de préoccupations et d’autocritique. Ces préjugés ont perdu la force, pendant que mon intuition, le plus profond de mes sentiments – et pourquoi pas « mon inconscient » – étaient plus libres. De cette façon, je suis devenue un être créateur plus vivant et plus particulier : moi même, qui est aussi plusieurs êtres à la fois. Et tout cela commence par notre propre énergie.

 

Le corps présent

 

Avant quelque but artistique, la position zéro, la distribution d’énergie et la respiration constituent un travail avec le corps humain qui l’enrichit en tant qu’organisme. Pour les acteurs, le développement de ses qualités devient encore plus important car le corps humain est leur instrument de travail.

Cette recherche sur le propre corps à travers la diffusion d’énergie me fait penser au Kundalini Yoga. Une branche du yoga avec plus de mouvement que les autres, il consiste de faire augmenter l’énergie créative nommée Kundalini, normalement endormie dans nos colomnes, pour atteindre l’émanation de l’infini, notre énergie du cosmos.

Le Yoga Kundalini est arrivé à l’occident grâce à Yogi Bhajan qui parta de l’Inde en 1969 pour faire connaître la méthode millénaire aux États-Unis. De cette façon, il propose de faire vivre l’énergie Kundalini parmi les préoccupations quotidiennes trouvées dans le rythme occidental, comme la routine de travail. Cette branche du yoga arrive ainsi à être plus concret que les autres, car quand le corps bouge l’esprit se détache plus facilement des pensées référentes aux préoccupations de chaque jour, ce qui ne se passe pas aussi évidemment dans les autres méthodes de yoga, étant donné que quand on essaie de se concentrer dans une position de repos, seulement l’esprit concentre les énergies qui, normalement, sont déviées à d’autres pensées.

Dans nos exercices de la Technique de Formation Intuitive et Corporelle, nous nous sommes trouvés aussi dans une réalité où il fallait déconcentrer la force, les émotions et l’énergie de la tête et la distribuer par le corps. Nous avons appris que c’est très important d’ouvrir les yeux pour faire les exercices et laisser la tête aller librement avec le mouvement du corps.

Nous avons réveillé chaque partie de notre corps. Celles qui nous ne sentions pas beaucoup sont devenues ce qui nous poussait à créer. Nous avons obtenu conscience de nos corps et c’est pour cela que nous avons pu créer. 

*

 

Chaque jour était un nouveau défi. Et chaque fin de journée nous avions un corps plus grand, puissant et capable de créer. Vers six heures de l’après-midi nous commencions à décrire nos sentiments par rapport à ce que nous avions vécu. Et chaque fin de journée les gens étaient plus passionnés par ce travail.

Si dans le premier jour nous hésitions avant de monter sur le plateau pour composer un demi-groupe et executer un exercice, le dernier jour il y avait déjà beaucoup de gens disponibles et quelques uns ont dû descendre et attendre leur fois / tour. Si lundi l’exercice « je m’appelle » nous effrayait un peu, jeudi il nous tentait, il nous invitait à jouer, sans y réfléchir, sans penser aux conséquences.

Nous avons aussi appris à savoir regarder le public et à convivre avec lui, sans y avoir peur. Et aussi à transmettre nos énergies par nos yeux, nos postures, nos gestes, nos voix. En plus, nous avons appris à être spectateurs et à sentir les émotions qui viennent des acteurs. Et cela fait plaisir.

Il s’agit d’un plaisir qui commence par l’intimité. C’est d’abord une intimité avec nous mêmes, nos envies, nos sentiments, notre intuition, notre corps. Ensuite, c’est de connaître nos collègues, de savoir leur offrir ce que nous avons et savoir recevoir ce qu’ils ont à nous offrir. Encore, c’est une intimité avec le public, le plateau, le théâtre.

Après cette expérience je peux dire que je connais mes collègues. Ceux qui je croisais parfois, qui me saluaient ou ni même pas, que je voyais écrire pendant les cours, parler un peu, boire un café. Sur le plateau j’ai vu ce qu’ils sont vraiment. Je les ai vus sensibles, intenses, vivants. Et après ces quatre jours j’ai découvert une nouvelle moi aussi. C’est pour cela que j’ai gardé un des affiches de la Master-classe et je l’ai mise sur mon mûr. Je pense que, bien que j’aie déjà été plusieurs fois sur le plateau, avant ces quatre jours mon corps n’avait jamais été vraiment incarné.

 

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