O corpo presente

Mariana M. Braga

“Eu sempre considerei a arte do ator como a arte de se colocar a serviço de uma história com seu corpo”, Delphine Eliet. (J’ai toujours considéré l’art de l’acteur comme l’art de se mettre au service d’une histoire avec son corps)

Para começar minhas postagens sobre minha experiência e meus estudos em teatro, escolhi postar o artigo em que relato a experiência dos quatro dias de contato com a Técnica de Corfimação Intuitiva e Corporal (Technique de Confirmation Intuitive et Corporelle) de Delphine Eliet, da École du Jeu, de Paris. Um texto bem subjetivo, já que a transformação pessoal que este método provocou foi muito importante, com uma breve análise e comparação da técnica de Delphine com alguns conceitos de psicanálise e yoga. O texto original, que escrevi em francês, encontra-se logo abaixo da versão em português.

Espero que gostem.
Deixem comentários à vontade. Adoro poder discutir sobre isso.

Durante esses quatro dias de trabalho intenso, eu “me deixei atravessar”, como pede o método de formação de Delphine Eliet, pelas emoções que nascem naturalmente, sem que eu as programe. Pelas pulsões e pela intuição. Essa espontaneidade nos leva a uma realidade cênica onde o público não nos impõe medo, mas nos impulsiona. Depois desses quatro dias, eu me tornei uma nova Mariana, mais corajosa porque menos preocupada com meus movimentos e a impressão que eles podem provocar aos outros. Eu me censuro menos e não me preocupo mais em conseguir provocar algum efeito: eu acredito nos meus sentimentos, os vivo e eu os ponho à prova sem nenhum objetivo definido e limitador. Essa construção natural de vida leva ao prazer.

Dessa forma, não há espaço para os clichês. As idéias construídas socialmente em relação aos sentimentos, as convenções, os gestos exagerados e as expressões barrocas, tudo o que pode ser “forçado” e por isso impreciso desaparece quando nós alcançamos esse nível de intensidade das nossas emoções, da qual o corpo livre é o principal responsável.

A pulsão e o exterior

         De que se trata então o « se deixar atravessar por » ? Todas as vezes em que o trabalho com Delphine Eliet e meus colegas me levou à reflexão sobre a importância de fazer o corpo mexer sem hesitar, inspirado pela energia distribuída por todas as partes, como o fazem as crianças, eu pensei no constante conflito humano, proposto pela psicanálise, por exemplo, entre as convenções sociais e as pulsões.

Quando uma criança brinca, ela não pensa no que ela deve fazer para alcançar seu prazer, ele não reflete sobre o que ela é capaz ou não de fazer, não julga algo bobo ou inteligente. É por isso que ela sabe melhor do que os adultos como tratar do “eu não sei de nada”, do fato de não conhecer aquilo que ela criará em seguida. Durante esses primeiros anos, a criação só busca seu prazer e nesta pesquisa ele encontra imposições externas, julgamentos, proibições. Este contato com o mundo, ou seja “o Outro”, modela o ser humano e cria um bloqueio aos desejos pessoais. Estar em cena em plenitude seria, então, alcançar seu estado infantil interior à tensão proposta pelo seu meio.

O conceito de pulsão na Psicanálise é obrigatória para compreender todas as suas outras teorias. Trata-se de uma força originária do inconsciente que tem um objetivo final de prazer, um objeto e uma fonte. A pulsão pode buscar uma realização anal, oral ou de destruição, por exemplo. De todas as formas, o objetivo é sempre de alcançar o prazer (mesmo no sofrimento). A pulsão é constante, composta também por pulsões parciais que buscam unicamente o prazer do organismo.

Quando o desprazer é maior que o prazer de atingir o objetivo de uma pulsão – normalmente por causa de uma pressão social – ela pode seguir quatro destinos diferentes: uma sublimação, uma repressão dessa pulsão, uma inversão dela ao seu contrário, um retorno à própria pessoa. Nós podemos distinguir três tipos de repressão – a primária ou original, a secundária e o retorno do recalcado. (S. FREUD,  Pulsions et destins des pulsions, 1915, S. FREUD, Trois essais sur la théorie de la sexualité, 1905)

Ao longo to tempo, então, há recalques que não deixam nenhuma marca de existência, porque foram bem realizados. Outros reaparecem e podem ser percebidos através dos sonhos, dos atos falhos, dos lapsos e dos chistes, por exemplo. Os sinais só são possíveis através do relaxamento do superego, a parte da nossa consciência que fiscaliza nós mesmos.

O superego é o produto da renúncia às pulsões, resultante da fiscalização sobre o ego, introjetando as pulsões amorosas em relação aos pais e as sádicas impedindo de se dirigir ao exterior. O superego é então responsável pelas idealizações do sujeito em relação a ele mesmo, sobre o que ele deve ser.

Em cena, durante o trabalho de Delphine Eliet, eu senti que vivi um estado em que eu me censurava menos. Poderíamos dizer que eu tornei meu superego mais fraco, mas os termos aqui são os menos importantes. A idéia que me interessa é que esta experiência me fez ter menos hesitações, menos preocupações e auto-crítica. Esses pré-julgamentos perderam força, enquanto minha intuição, o mais profundo dos meus sentimentos – e por que não “meu inconsciente”- se tornaram mais livres. Dessa forma, eu me tornei um ser criador mais vivo e particular : eu mesma, que é também várias outras ao mesmo tempo. E tudo isso começa pela nossa própria energia.

Antes de qualquer objetivo artístico, a posição zero, a distribuição de energia e a respiração constituem um trabalho com o corpo humano que o enriquece como organismo. Para os autores, o desenvolvimento de suas qualidades se torna ainda mais importante porque o corpo humano é o seu instrumento de trabalho.Imagem

O corpo presente

Esta pesquisa sobre o próprio corpo através da difusão de energia me faz pensar no Kundalini Yoga. Uma vertente do yoga com mais movimentação que os outros, ele consiste em aumentar a energia criativa denominada Kundalini, normalmente adormecida nas colunas, para atingir a emanação do infinito, nossa energia do cosmos.

O Yoga Kundalini chegou ao ocidente graças a Yogi Bhajan que partiu da Índia em 1969 para tornar conhecido o método milenar nos Estados Unidos. Assim, ele propõe tornar viva a energa Kundalini entre as preocupações cotidianas encontradas no ritmo ocidental, como a rotina de trabalho. Essa vertente de yoga chega assim a ser mais concreta que as outras, pois quando o corpo se mexe o espírito se destaca mais facilmente dos pensamentos referentes às preocupações de cada dia, o que não acontece tão evidentemente nos outros métodos de yoga, tendo em vista que quando tentamos nos concentrar em uma posição de repouso, somente o espírito concentra as energias que, normalmente, são desviadas a outros pensamentos.

Nos nossos exercícios da Técnica de Formação Intuitiva e Corporal, nos encontramos também em uma realidade onde era necessário desconcentrar a força, as emoções e a energia da cabeça para distribuí-las pelo corpo. Aprendemos que é muito importante abrir os olhos para fazer os exercícios e deixar a cabeça seguir livremente com o movimento do corpo.

Nós acordamos cada parte do nosso corpo. Aquelas que não sentíamos muito se tornaram aquilo o que nos impulsionava a criar. Nós obtivemos consciência de nossos corpos e é por isso que pudemos criar.

*

Cada dia foi um novo desafio. E cada fim de tarde nós tínhamos um corpo maior, mais poderoso e capaz de criar. Perto das seis horas da tarde, nós começavamos a descrever os sentimentos em relação ao que tínhamos vivido. E cada fim de dia as pessoas estavam mais encantadas por esse trabalho.

Se no primeiro dia hesitávamos antes de subir no palco para compor um semigrupo e executar um exercício, no último dia já tinha muita gente disposta e alguns tiveram que descer e esperar sua vez. Se na segunda-feira o exercicio “eu me chamo” nos assustava um pouco, na quinta ele nos tentava, nos convidava a atuar, sem refletir sobre isso, sem pensar nas consequências.

Nós aprendemos a saber olhar o público e a conviver com ele, sem ter medo. E também a transmitir nossas energias pelos nossos olhos, posturas, gestos e vozes. Além disso, aprendemos a ser espectadores e a sentir as emoções que vêm dos atores. E isso era muito prazeroso.

Trata-se de um prazer que começa com a intimidade. É antes de tudo uma intimidade com nós mesmos, nossas vontades, sentimentos, intuição e corpo. Em seguida, é conhecer os colegas, saber oferecê-los o que nós temos e receber aquilo o que têm a nos oferecer. Também é uma intimidade com o público, o palco, o teatro.

Depois dessa experiência eu posso dizer que conheço meus colegas. Aqueles que eu via nos corredores, que me cumprimentavam ou nem mesmo isso, que eu via escrever durante as aulas, falar um pouco, tomar um café. No palco eu vi quem eles são de verdade. Eu os vi sensíveis, intensos, vivos. E depois desses quatro dias eu descobri uma nova “eu” também. É por isso que eu guardei um dos cartazes dessa Master-class e a colei na minha parede. Eu acho que, mesmo que eu já tenha estado inúmeras vezes sobre o palco, meu corpo nunca esteve verdadeiramente “encarnado” antes desses quatro dias.

Quer saber mais? Entre no site da École du Jeu: http://www.ecoledujeu.com/

MARIANA MARCONDES BRAGA

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2 responses to “O corpo presente

  1. Olá, Beatriz.
    Antes de tudo, obrigada pela leitura.
    A École du Jeu serve para a formação profissional de atores, mas também é aberta a um público mais extenso que queira se aprofundar=na atuação ou simplesmente para descobrir o potencial criativo, ganhar auto-confiança e relaxar o corpo. A experiência que eu tive foi a Master-class, uma aula prática no meio das muitas teóricas do mestrado, em que tivemos contato com algumas das etapas da técnica da Delphine Eliet.
    O site da école é o http://www.ecoledujeu.com . Se precisar de ajuda com a tradução, me avise.

    Mariana.

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