Uma forma (ainda) mais ousada de pensar Nelson Rodrigues – sobre ‘Viúva, porém honesta’

magiluth

Mariana M. Braga

Eles vêm de Recife, cidade natal do grande Nelson Rodrigues, para apresentar a também rodrigueana Viúva, porém honesta. E a casa lota. O espetáculo demora para começar neste sábado 06 de abril para tentar encaixar na plateia pelo menos uma parte da fila de pessoas que ainda não tinham comprado ingresso mas queriam assistir à peça. Coisa bonita de se ver.

Desde este começo, da organização do público nas cadeiras e no chão, os atores cumprimentam todos os espectadores e distribuem flores, para que sejam jogadas ao final, de um jeitinho melodramático à la rodrigueana, mas sem as vaias que ele também adorava ouvir, afinal o público de hoje já é outro… já conhece Nelson Rodrigues e foi lá exatamente para ver Nelson Rodrigues. Enquanto isso se ouve a voz do dramaturgo gravada, naquela dicção dele difícil de entender. O ambiente está preparado.

Então os cinco atores se preparam. Fazem algo que parece ser um aquecimento diante do público. E a história começa: a da viúva, filha de J.B. Albuquerque Guimarães, o gangster do “A Marreta”, maior jornal do Brasil. A jovem se recusa a sentar depois de ter perdido o marido, afirmando que o homem no caixão é o único que merece fidelidade. Para resolver o problema e convencê-la a se casar de novo, o jornalista chama especialistas, como um otorrinolaringologista, um psicanalista e uma ex-prostituta. O dramaturgo criou tudo isso para criticar os grandes grupos e instituições sociais. O principal alvo é a crítica de teatro, personificada em Dorothy Dalton, já que na vida real Nelson vivia numa luta contra a maior parte dos críticos que não entendiam suas peças. Os atores se revezam nos personagens, reforçando a ideia de que estes fazem parte de estereótipos.

Quando se fala em Nelson Rodrigues, todo o mundo pensa que vai ver só sexo em cena, ainda que o próprio autor se defendesse dizendo que ele era um moralista e que as “aberrações” ali presentes eram para provocar a catarse no público. Nessa encenação teve sim muita referência ao ato sexual de uma forma cômica e às vezes escrachada, o que deu ao que Nelson intitulou “farsa irresponsável” um tom de comédia do nosso tempo. Mas o que é a farsa senão um misto de comédia e crítica social? Pode até ser que, se Nelson estivesse vivo, ele quisesse colocar em cena uma direção um tiquinho mais realista. De qualquer forma, espírito rodrigueano ali não falta.

Um cenário que começa limpo, com algumas cadeiras e adereços nas laterais e ternos e gravatas pendurados ao fundo, vai se tornando uma loucura ao longo da peça. Tudo isso é fruto de uma “peça psicológica”, como denominou Sábato Magaldi uma das categorias de textos de Nelson. Não há coxias e tudo é feito em cena, numa metalinguagem bonita de se ver e num ritmo que não incomoda. Cena marcante é a da volta de Dorothy Dalton do inferno, com jornais voando para todos os lados. Os momentos que parecem mais agradar ao público são as batatas que caem em cena, porque o Nelson não cansava de dizer: “É batata”.

Viúva, porém honesta, feita pelos grandes artistas pernambucanos do Grupo Magiluth, traz o espírito rodrigueano com um olhar mais ousado. E vale muito, afinal Nelson já virou um clássico e ninguém quer ver sempre a mesma coisa. A peça movimentou muito o Festival de Teatro de Curitiba. Merecidamente.

Direção: Pedro Vilela
Elenco: Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mario Sergio Cabral, Pedro Wagner (Grupo Magiluth)

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